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Ourivesaria Portuguesa
A ourivesaria portuguesa, do ouro e da prata: da Custódia de Belém manuelina aos tesouros barrocos, técnicas, contrastes e oficinas em Portugal.
A ourivesaria é a arte de trabalhar os metais preciosos — sobretudo o ouro e a prata — para produzir joias, alfaias litúrgicas e baixela. Em Portugal, esta arte constitui um dos capítulos mais brilhantes das artes decorativas, atravessando do esplendor manuelino aos grandes serviços barrocos e à joalharia popular que ainda hoje se faz no Norte do país. A sua história confunde-se com a da própria expansão marítima, que trouxe a Portugal o ouro e a prata com que se lavraram algumas das obras mais admiradas da Europa.
Do manuelino aos tesouros do Oriente
A peça emblemática da ourivesaria portuguesa é a Custódia de Belém, lavrada em 1506 e tradicionalmente atribuída ao ourives e dramaturgo Gil Vicente. Mandada fazer por D. Manuel I para o Mosteiro dos Jerónimos, foi executada em ouro e esmaltes policromos no requintado vocabulário do tardo-gótico, com os doze apóstolos ajoelhados e, no topo, a pomba do Espírito Santo em ouro esmaltado de branco.
O ouro empregue tinha proveniência simbólica: era o tributo pago pelo régulo de Quíloa (na atual Tanzânia) em sinal de vassalagem à coroa portuguesa, trazido por Vasco da Gama no regresso da sua segunda viagem à Índia. A custódia é assim, simultaneamente, uma obra de arte e um documento histórico da primeira globalização. Conserva-se hoje entre as joias do Museu Nacional de Arte Antiga.
Poucas obras condensam tão bem a época: o ouro do Índico, a forma da arquitetura manuelina e o engenho de um artista que foi, ao mesmo tempo, ourives e fundador do teatro português.
O esplendor barroco da prata
Se o século XVI deixou obras de exceção, foi sobretudo o Barroco que generalizou a prataria como linguagem de poder e devoção. Durante o reinado de D. João V, alimentado pelo ouro do Brasil, as oficinas do Porto e de Lisboa multiplicaram cálices, custódias, tochas, jarras e baixelas de mesa em prata maciça, com formas rocaille, repuxados ondulantes e cinzelado denso de folhagens, conchas e querubins. A linguagem da talha aplicava-se ao metal, fazendo das alfaias litúrgicas verdadeiras esculturas portáteis.
Esta produção era regulada por um rigoroso sistema de garantia. As marcas de contraste — punções oficiais aplicadas pelos ensaiadores municipais — certificavam o toque do metal e identificavam o ourives e a cidade de fabrico, permitindo hoje datar e localizar muitas peças. O ofício de ensaiador estruturou-se sobretudo entre finais do século XVII e o século XIX, sendo o Porto e Lisboa os grandes centros, mas com tradição também em Gondomar, Braga e outras praças.
A joia popular e a continuidade do ofício
A par da grande ourivesaria de aparato, floresceu uma joalharia popular de profundas raízes, em que se distingue a filigrana — o lavor de fios de ouro e prata torcidos e soldados, que dá origem a corações, brincos à rainha e arrecadas de extraordinária leveza. Esta arte concentrou-se sobretudo no Norte, em torno de Gondomar e do Vale do Ave, e continua a ser um dos traços mais reconhecíveis da joalharia tradicional portuguesa, usada nos trajes festivos do Minho.
As técnicas de base mantiveram-se notavelmente estáveis ao longo dos séculos: fundição, laminação, martelagem, soldagem e acabamento, a que se somam recursos expressivos como o repuxado, o cinzelado, o esmalte e a própria filigrana. É essa continuidade entre a oficina medieval, o atelier barroco e o ourives contemporâneo que faz da ourivesaria portuguesa um património vivo, e não apenas um conjunto de objetos de museu.
Perguntas frequentes
- Qual é a obra mais célebre da ourivesaria portuguesa?
- A Custódia de Belém, lavrada em 1506 e atribuída a Gil Vicente, executada com ouro trazido do Oriente. Conserva-se no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.
- O que distingue a prataria barroca portuguesa?
- O gosto pela talha aplicada ao metal, com formas rocaille, repuxados profundos e cinzelado denso, sobretudo nas oficinas do Porto e de Lisboa durante o reinado de D. João V.
- O que são as marcas de contraste na ourivesaria?
- São punções oficiais que certificam o toque (teor) do ouro e da prata e identificam o ourives e a cidade. O sistema de ensaiadores municipais vigorou em Portugal sobretudo entre finais do século XVII e o século XIX.