Tipologias

Cemitérios Históricos

Cemitérios históricos de Portugal: jazigos, mausoléus e arte tumular oitocentista, dos cemitérios românticos da Lapa e dos Prazeres ao património funerário do…

Cemitérios Históricos
J.M.Guimarães, Public domain — Wikimedia Commons

Os cemitérios históricos constituem uma das tipologias mais singulares do património edificado português: cidades dos mortos traçadas à imagem das cidades dos vivos, onde se acumulam, num espaço relativamente reduzido, arquitetura, escultura, serralharia e cerâmica de grande qualidade. Nascidos de uma reforma sanitária do século XIX, tornaram-se, ao longo de duzentos anos, repositórios de memória familiar, de gosto artístico e de toda uma cultura da morte.

Da igreja ao campo aberto: a reforma oitocentista

Até ao primeiro terço do século XIX, os mortos eram sepultados sobretudo dentro das igrejas, capelas e claustros conventuais, ou nos adros que as rodeavam. A acumulação de cadáveres em pleno tecido urbano constituía um grave problema de salubridade, agravado pelas teorias miasmáticas então dominantes. A epidemia de cólera-morbo que assolou o país em 1833 tornou urgente a criação de grandes cemitérios afastados das povoações.

A resposta legislativa veio em 1835, com o decreto que oficialmente criou os cemitérios públicos e proibiu os enterramentos no interior das igrejas e dentro dos lugares habitados. A medida foi reforçada pelo decreto de 28 de setembro de 1844, que impôs o depósito dos restos mortais, mediante licença sanitária, em cemitérios construídos em campo aberto. A reforma chocou frontalmente com a sensibilidade religiosa popular, que via no enterro junto ao altar uma garantia de salvação: a proibição foi um dos estopins da Revolução da Maria da Fonte de 1846, no Minho, onde a recusa de sepultar uma defunta fora da igreja desencadeou o levantamento que viria a derrubar o governo de Costa Cabral.

O cemitério oitocentista nasce, paradoxalmente, de uma lei de higiene pública — mas depressa se converte em palco do sentimento romântico, espaço de meditação ajardinado onde a burguesia ergue à memória dos seus mortos os monumentos mais ambiciosos da cidade.

Arte tumular e programa simbólico

Os cemitérios criados a partir desta data — o Cemitério da Lapa, no Porto, tido como o mais antigo cemitério romântico português, o de Agramonte (reorganizado em 1869), e em Lisboa os Prazeres e o Alto de São João — organizam-se em avenidas e ruas arborizadas, ladeadas por jazigos de família. Estes pequenos templos privados constituem um catálogo vivo dos estilos do século XIX e XX: do neoclássico ao neogótico, do neomanuelino à Arte Nova, mobilizando o gosto historicista do romantismo e dos revivalismos.

A ornamentação obedece a um programa iconográfico recorrente, em que cada motivo tem sentido preciso: a ampulheta alada e a foice evocam a passagem do tempo e a finitude; a coruja, a vigília; a papoila, o sono e o esquecimento; as urnas com lágrimas, o pranto; as coroas de flores, a glória efémera. A esta gramática simbólica respondem os melhores cinzéis e os mais hábeis serralheiros do seu tempo, num diálogo entre a escultura portuguesa erudita e o trabalho do ferro forjado dos gradeamentos e portões.

Entre as peças notáveis contam-se o mausoléu dos duques de Palmela, no Cemitério dos Prazeres — frequentemente apontado como o maior jazigo privado da Europa —, e o túmulo de António Augusto Carvalho Monteiro, atribuído ao cenógrafo-arquiteto Luigi Manini, o mesmo da Quinta da Regaleira. A monumentalidade destes conjuntos não está longe da que anima a estatuária e os monumentos comemorativos erguidos, no mesmo período, nas praças das cidades.

Um património por reconhecer

Durante muito tempo desvalorizados como espaços meramente funcionais, os cemitérios históricos têm vindo a ser reabilitados enquanto bens culturais. Vários conjuntos foram já classificados — a igreja e o cemitério da Lapa, por exemplo, como Monumento de Interesse Público — e em alguns casos as próprias capelas cemiteriais acolhem núcleos museológicos, como o instalado na capela dos Prazeres a partir de 2001. Inserem-se, assim, no quadro mais amplo das tipologias do património edificado, como testemunho material das atitudes coletivas perante a morte e a memória ao longo dos séculos XIX e XX.

Perguntas frequentes

Quando surgiram os cemitérios públicos em Portugal?
Os primeiros cemitérios extramuros foram criados na sequência da epidemia de cólera de 1833, mas só o decreto de 1835 instituiu formalmente os cemitérios públicos, proibindo os enterramentos no interior das igrejas. A obrigatoriedade foi reforçada pelo decreto de 28 de setembro de 1844.
Qual é o cemitério romântico mais antigo de Portugal?
O Cemitério da Lapa, no Porto, é geralmente apontado como o mais antigo cemitério romântico português. Teve origem em 1833, durante o Cerco do Porto e a epidemia de cólera, embora a sua bênção oficial só tenha ocorrido em 1838 e os primeiros monumentos sumptuosos datem de 1839.
Porque é que os cemitérios oitocentistas são considerados património?
Concentram um acervo notável de arquitetura, escultura, serralharia e cerâmica de autores eruditos do século XIX e XX, além de um denso programa simbólico. Por isso são hoje vistos como verdadeiros 'museus da morte' ao ar livre, com vários classificados como Monumento de Interesse Público.

Fontes

  1. Cemitério dos Prazeres — Wikipédia
  2. Cemitério do Alto de São João — Wikipédia
  3. QUEIROZ, José Francisco Ferreira — Cemitérios oitocentistas portugueses: os museus da morte