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Cerâmica das Caldas da Rainha

A cerâmica das Caldas da Rainha: faiança naturalista e satírica de Manuel Mafra a Rafael Bordalo Pinheiro, no Oeste de Portugal, distrito de Leiria.

Cerâmica das Caldas da Rainha
Senhormario, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

A cerâmica das Caldas da Rainha é uma das tradições oleiras mais originais de Portugal. Nascida no Oeste, no distrito de Leiria, distingue-se pelo modelado naturalista em relevo — folhas de couve, frutos, peixes, conchas, sapos e lagartos — e por uma irreverência satírica que poucos centros cerâmicos europeus souberam cultivar. Mais do que louça, é uma forma de comentar o mundo, a meio caminho entre a olaria popular e a escultura.

Das olarias populares à faiança artística

As Caldas conheceram produção oleira desde, pelo menos, o século XVII, ligada às nascentes termais que deram fama à vila. Mas o ponto de viragem deu-se no início do século XIX com Maria dos Cacos (n. 1797), oleira e feirante cuja oficina, ativa entre 1820 e 1853, é tida como o motor inicial do centro cerâmico caldense. A sua louça utilitária, vidrada a verde de cobre ou a castanho de manganês, de gosto popular, abriu caminho à fase seguinte.

Essa fase foi a da cerâmica artística, fundada por Manuel Cipriano Gomes Mafra (1831–1905), que tomou a oficina herdada de Maria dos Cacos e a dirigiu entre 1853 e 1905. Mafra fixou nas Caldas o estilo naturalista de inspiração palissiana — em referência ao ceramista francês Bernard Palissy do século XVI —, cobrindo pratos, jarras e fontes com répteis, anfíbios e vegetação modelados com extraordinário realismo. Premiada nas exposições universais de Viena (1873), Filadélfia (1876) e Paris (1878), e fornecedora da Casa Real desde 1870, a faiança de Mafra projetou internacionalmente o nome das Caldas.

A cerâmica caldense nasceu humilde, na mão das oleiras de feira, e fez-se arte sem nunca perder o gosto pelo barro, pelo relevo e pela cor — uma faiança que se toca com os olhos.

Rafael Bordalo Pinheiro e a sátira em barro

O génio que tornou a cerâmica das Caldas universal foi Rafael Bordalo Pinheiro (1846–1905), caricaturista e ceramista que fundou em 1884 a Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha, com o apoio do irmão Feliciano e do escritor Ramalho Ortigão. Bordalo levou a tradição naturalista a um novo patamar e acrescentou-lhe uma dimensão inédita: a sátira social. Das suas mãos saíram peças que retratam a sociedade portuguesa do seu tempo, incluindo o célebre Zé Povinho, figura-símbolo do povo, e uma galeria de tipos cómicos modelados em relevo.

A produção da fábrica foi vastíssima — louça utilitária e decorativa, escultura, materiais de construção e azulejo —, e Ramalho Ortigão chamou-lhe “uma narrativa iconográfica” da história popular portuguesa. Apesar das crises financeiras, que levaram à falência em 1907 e à criação, pelo filho Manuel Gustavo, da Fábrica de San Rafael em 1908, o legado resistiu. A faiança das Caldas insere-se assim no panorama mais amplo da cerâmica e faiança portuguesa e das artes decorativas portuguesas, ao lado de tradições como a louça preta de Bisalhães ou a porcelana fina da Vista Alegre.

Uma tradição viva

A cerâmica caldense nunca se extinguiu. A Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro mantém-se em laboração na vila de Caldas da Rainha, reeditando os modelos históricos e integrando, desde 2018, o grupo Vista Alegre. O Museu de Cerâmica e o Museu Bordalo Pinheiro guardam e estudam este património, enquanto inúmeras oficinas locais perpetuam o ofício. O verde-couve, o sapo de fontanário e o prato de relevo continuam a ser, para os portugueses, sinónimo imediato das Caldas — prova de uma cultura material que soube ser, ao mesmo tempo, popular, artística e profundamente nacional.

Perguntas frequentes

Quem foi o principal criador da cerâmica artística das Caldas da Rainha?
Manuel Cipriano Gomes Mafra (1831–1905) deu origem à cerâmica artística caldense a partir de 1853, fixando o estilo palissiano e naturalista. Rafael Bordalo Pinheiro elevou-a depois a dimensão satírica e nacional com a Fábrica de Faianças, fundada em 1884.
O que distingue a faiança das Caldas?
Distingue-se pelo relevo naturalista — folhas, frutos, animais, répteis e conchas modelados à mão e vidrados com cores vivas — e pela vertente satírica criada por Bordalo Pinheiro, que retratou a sociedade portuguesa e figuras como o Zé Povinho.
A produção continua viva hoje?
Sim. A Fábrica de Faianças Bordallo Pinheiro mantém-se em laboração nas Caldas da Rainha e, desde 2018, integra o grupo Vista Alegre, que reedita os modelos históricos.

Fontes

  1. Fábrica de Faianças das Caldas da Rainha — Wikipédia
  2. Manuel Cipriano Gomes Mafra — Wikipédia
  3. Cerâmica — Museu Bordalo Pinheiro