Monumentos
Convento de Jesus (Setúbal)
Convento de Jesus de Setúbal: obra inaugural do manuelino projetada por Diogo de Boitaca, com colunas torsas em pedra de Arrábida e o atual Museu de Setúbal.
O Convento de Jesus de Setúbal é uma das obras fundadoras da arquitetura portuguesa do Renascimento. Erguido na transição do século XV para o XVI, é amplamente reconhecido como o primeiro monumento concebido segundo a gramática que viria a chamar-se estilo manuelino, antecipando em alguns anos as grandes empreitadas de Belém e da Batalha. A sua importância não reside na escala — é um edifício de proporções contidas — mas no caráter experimental e inaugural das soluções que aqui se ensaiaram pela primeira vez.
Fundação e construção
A origem do convento prende-se com um voto de Justa Rodrigues Pereira, ama de criação do futuro rei D. Manuel I e figura ligada à casa dos duques de Beja. A autorização para a fundação do mosteiro foi concedida por bula do papa Inocêncio VIII em 1489, com o consentimento régio de D. João II no ano seguinte; a primeira pedra terá sido lançada em 1490. Destinado a uma comunidade de religiosas clarissas, o conjunto ficou substancialmente concluído por volta de 1500.
O projeto da igreja é atribuído a Diogo de Boitaca, o mesmo mestre que pouco depois iniciaria o Mosteiro dos Jerónimos em Lisboa. Em Setúbal, Boitaca trabalhou ainda com a liberdade de quem experimenta, sem o peso de um programa real monumental, e foi precisamente essa margem que permitiu a ousadia das soluções estruturais.
Uma linguagem nova em pedra de Arrábida
O traço mais célebre do interior são as três altas colunas torsas — fustes em espiral, como cordas retorcidas — que dividem as naves e sobem até abóbadas de nervuras igualmente espiraladas. A igreja organiza-se como igreja-salão (Hallenkirche), com as três naves à mesma altura, sendo este o primeiro ensaio conhecido desta tipologia em Portugal. O resultado é um espaço unitário e luminoso, muito distinto da verticalidade compartimentada do gótico anterior.
Toda esta cantaria foi executada na característica pedra de Arrábida, um calcário rosado-acastanhado extraído da serra vizinha, cuja tonalidade quente confere ao interior uma atmosfera singular. O portal e a capela-mor destacam-se igualmente pelo aproveitamento expressivo deste material local.
As colunas torsas do Convento de Jesus são, em rigor, o gesto que abre o vocabulário manuelino: antes de se tornarem ornamento difundido, foram aqui um problema de engenharia resolvido com elegância.
Do hospital ao Museu de Setúbal
Extinto o convento no contexto das reformas liberais do século XIX, o edifício conheceu usos diversos, tendo chegado a funcionar como hospital da cidade até 1959. Em 1961 reabriu vocacionado para a cultura, e o conjunto — igreja, claustro e antiga casa do Capítulo — acolhe hoje o Museu de Setúbal. O acervo é notável pela coleção de pintura portuguesa de Quinhentos, com obras associadas ao chamado mestre da escola setubalense, e por núcleos de azulejaria que dialogam com a longa tradição do azulejo português.
A relevância do monumento foi cedo reconhecida: a igreja foi classificada como Monumento Nacional em 1910 e, em 2011, o conjunto recebeu a distinção de Marca do Património Europeu. Quem visita Setúbal encontra ainda, a curta distância, o mesmo património na vizinha Igreja de Jesus, e pode prolongar o roteiro até ao recolhimento do Convento da Arrábida, na serra que deu o nome — e a pedra — a esta obra inaugural.
Perguntas frequentes
- Quem fundou o Convento de Jesus de Setúbal?
- Foi fundado por Justa Rodrigues Pereira, ama de D. Manuel I, que cumpriu assim um voto. A autorização papal data de 1489 e a primeira pedra foi lançada em 1490.
- Por que é considerado o primeiro monumento manuelino?
- A igreja, projetada por Diogo de Boitaca por volta de 1494, introduziu pela primeira vez em Portugal as colunas torsas e o esquema de igreja-salão que viriam a definir o estilo manuelino.
- O que se pode visitar hoje no Convento de Jesus?
- A igreja, o claustro e a antiga casa do Capítulo conservam-se e acolhem o Museu de Setúbal, com a sua notável coleção de pintura quinhentista e azulejaria.