Monumentos
Igreja de Jesus (Setúbal)
A Igreja de Jesus, em Setúbal, obra de Diogo de Boitaca iniciada em 1490, é considerada o marco inaugural do estilo manuelino em Portugal.
A Igreja de Jesus, em Setúbal, ocupa um lugar singular na história da arquitetura portuguesa: é geralmente apontada como a primeira obra do estilo manuelino, antecedendo em mais de uma década os monumentos que viriam a consagrá-lo. Erguida na então próspera vila piscatória do Sado, anuncia já, em torno de 1490, a linguagem que marcaria o reinado de D. Manuel I.
Fundação e construção
A iniciativa partiu de Justa Rodrigues Pereira, ama de D. Manuel I, que mandou edificar um convento de clarissas dedicado a Jesus. A primeira pedra foi lançada a 17 de agosto de 1490, e a igreja ficou concluída por volta de 1495. A direção da obra coube a Diogo de Boitaca, mestre de origem provavelmente francesa que viria a assinar os trabalhos do Mosteiro dos Jerónimos, em Belém, e cuja oficina seria decisiva na difusão da nova gramática decorativa.
A tradição refere que D. João II, presente ao lançamento da primeira pedra, terá considerado acanhadas as dimensões previstas, levando a ajustar a planta no próprio terreno. O episódio, verídico ou não, dá conta da importância régia atribuída à empreitada desde o início.
A invenção de uma linguagem
O que torna a Igreja de Jesus tão notável é a antecipação de soluções que se julgariam mais tardias. O templo é um dos primeiros — e o mais audaz — ensaios da igreja-salão (do alemão Hallenkirche) em Portugal: três naves de igual altura, sem transepto marcado, que se fundem num único espaço amplo e luminoso. Esse efeito de sala unificada rompe com a hierarquia gótica tradicional e abre caminho à monumentalidade manuelina.
As colunas torsas da Igreja de Jesus parecem cordas de pedra retorcidas para suster o céu da abóbada: é o manuelino antes de o saber ser.
As seis colunas que dividem as naves são talhadas em brecha da Arrábida, mármore brechado de tons rosa e cinza extraído na serra vizinha. Torcidas em hélice, parecem feixes de cordas petrificadas — um motivo que ecoa o gosto marítimo da época e que reaparecerá, depurado, nos grandes estaleiros régios. As abóbadas nervuradas que descarregam sobre estes pilares completam um interior de rara coerência.
Do convento ao museu
Suprimido o convento na sequência da extinção das ordens religiosas, no século XIX, o conjunto perdeu a função monástica mas conservou o templo. A igreja foi classificada como Monumento Nacional em 1910, no primeiro grande arrolamento patrimonial da República. Hoje, as antigas dependências conventuais acolhem o Museu de Setúbal, guardando uma notável coleção de tábuas quinhentistas, enquanto a igreja permanece o coração simbólico do conjunto. Para o contexto monástico mais amplo, veja o Convento de Jesus de Setúbal e a cidade que o envolve, Setúbal.
Modesta na escala mas pioneira na conceção, a Igreja de Jesus é um documento maior para compreender o estilo manuelino: aqui, antes de Belém, experimentou-se a fusão entre o gótico tardio e a exuberância decorativa que daria identidade a toda uma época.
Perguntas frequentes
- Por que se considera a Igreja de Jesus o início do estilo manuelino?
- Iniciada em 1490 sob a direção de Diogo de Boitaca, antecede o Mosteiro dos Jerónimos e a Torre de Belém, ensaiando pela primeira vez as colunas torsas, as abóbadas nervuradas e a planta-salão que definiriam o manuelino.
- O que são as colunas torsas em brecha da Arrábida?
- São pilares helicoidais talhados num mármore brechado, de tons rosados e acinzentados, extraído na serra da Arrábida. Sustentam as abóbadas da igreja e constituem o seu traço plástico mais célebre.
- Pode visitar-se a Igreja de Jesus?
- Sim. A igreja integra o complexo do antigo Convento de Jesus, que acolhe o Museu de Setúbal, sendo um dos principais núcleos patrimoniais da cidade.