Patrimonio Inmaterial
Viola de Fado
A viola de fado, cordofone de seis cordas de aço que sustenta a harmonia e o ritmo do fado ao lado da guitarra portuguesa, e o seu papel no acompanhamento.
A viola de fado é o cordofone de acompanhamento que, ao lado da guitarra portuguesa, forma o par instrumental clássico do fado. Instrumento de seis cordas de aço, semelhante na forma à guitarra clássica, raramente ocupa o primeiro plano sonoro — e é precisamente nessa discrição que reside o seu papel: oferece o chão harmónico e rítmico sobre o qual a voz canta e a guitarra ornamenta.
Origem e evolução
A viola de fado descende da viola francesa, instrumento de cinco cordas simples que terá chegado a Portugal nas primeiras décadas do século XIX, possivelmente trazido por emigrantes ligados às causas liberais. Métodos de instrução documentam já a sua presença em Braga por volta de 1839. Ao longo do século, esta linhagem fixou-se na forma atual: uma viola de seis cordas, estruturalmente próxima da guitarra clássica espanhola, mas adaptada às necessidades do acompanhamento fadista.
A diferença mais audível está nas cordas. Enquanto a guitarra clássica recorre a cordas de nylon, a viola de fado usa cordas metálicas, que lhe conferem maior projeção e um timbre mais percussivo e seco. Por causa da tensão acrescida, a construção sofre pequenos ajustes — braço e cavalete reforçados —, mantendo embora a silhueta familiar do instrumento de seis cordas.
Função no acompanhamento
No fado, os papéis estão claramente repartidos. A guitarra portuguesa desenha a melodia, responde ao canto e tece as variações; a viola assegura a base harmónica e marca o pulso rítmico. É ela que estabelece a sequência de acordes, fixa o andamento e dá corpo e estabilidade à interpretação, libertando a guitarra e a voz para o seu diálogo expressivo.
No fado, a viola não procura brilhar: dá o chão. Sem esse alicerce contínuo, o virtuosismo da guitarra e a emoção do canto ficariam sem apoio onde assentar.
A técnica do violista de fado é específica e distingue-se da do guitarrista clássico. Predominam o ataque firme nos baixos, os acentos rítmicos marcados com o polegar e a alternância entre dedilhados suaves e batidas mais cravadas — um modo de tocar que dá ao fado de Lisboa o seu balanço característico. No fado de Coimbra, de feição mais baladística, o acompanhamento à viola tende a um carácter mais contido e cantábile.
A viola baixo e o conjunto fadista
Ao par tradicional juntou-se, em meados do século XX, a viola baixo — uma espécie de contrabaixo acústico português de quatro cordas, desenvolvido nos anos 1960. A sua função é reforçar e clarificar a linha de baixo, com um pulso regular que dá ainda maior margem de liberdade expressiva ao fadista e ao guitarrista, sem perder o controlo rítmico.
A sua introdução no fado de Lisboa deve-se sobretudo a Joel Pina (1920–2013), que a manteve durante anos no acompanhamento dos grandes nomes do género, nomeadamente nas casas de fado. Amália Rodrigues reconheceu-lhe o lugar singular, observando que o baixo, ao contrário dos demais instrumentos, era território que só ele dominava. Com voz, guitarra portuguesa, viola e viola baixo completa-se o quarteto que sustenta o fado na sua forma mais genuína.
Integrante de uma tradição reconhecida pela UNESCO como Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2011, a viola de fado partilha com outros cordofones de acompanhamento, como a viola campaniça do canto alentejano, a condição de instrumento que vive da função coletiva — discreto, mas indispensável ao todo. A sua continuidade depende tanto dos violistas que perpetuam o ofício de acompanhar como das oficinas de luteria que mantêm viva a arte da construção destes instrumentos.
Preguntas frecuentes
- Qual a diferença entre a viola de fado e a guitarra portuguesa?
- A viola de fado é um cordofone de seis cordas de aço, semelhante à guitarra clássica, que cumpre a função de acompanhamento harmónico e rítmico; a guitarra portuguesa, periforme e de doze cordas, assegura a linha melódica e os contracantos.
- Como se afina a viola de fado?
- Segue a afinação habitual da guitarra de seis cordas — Mi–Lá–Ré–Sol–Si–Mi —, mas recorre a cordas metálicas e a uma técnica de dedilhado e batido próprios do fado.
- O que é a viola baixo no fado?
- É um instrumento de quatro cordas, espécie de contrabaixo acústico português desenvolvido nos anos 1960, que reforça a linha de baixo do acompanhamento. Joel Pina foi quem o fixou no fado de Lisboa.