Arqueologia
Estátuas-menir e estelas decoradas
Estátuas-menir e estelas decoradas em Portugal: das figuras antropomórficas do Neolítico às estelas de guerreiro da Idade do Bronze, do Norte ao Alentejo.
Sob a designação de estátuas-menir e estelas decoradas reúne-se um conjunto heterogéneo de monumentos de pedra que têm em comum a representação da figura humana ou dos seus atributos. São, em sentido lato, as primeiras esculturas do território português: blocos erguidos verticalmente que, ao longo de vários milénios — grosso modo entre o Neolítico final e o termo da Idade do Bronze —, deixaram de ser apenas marcos no espaço para se tornarem imagens de pessoas, antepassados ou divindades. Distinguem-se dos simples menires precisamente por essa carga figurativa, ainda que a fronteira entre umas e outros seja frequentemente ténue.
Da pedra ao corpo: o sentido das duas categorias
A distinção convencionada é tipológica. A estátua-menir trabalha o bloco em volume, sugerindo a tridimensionalidade de um corpo — cabeça, tronco, por vezes braços ou seios em relevo. A estela mantém uma face essencialmente plana, na qual a figura e os seus adereços são gravados, incisos ou picotados. Entre os dois extremos existe toda uma gradação de soluções, e muitos investigadores preferem falar de um continuum antropomórfico que atravessa o megalitismo e prolonga as preocupações já visíveis na arte megalítica portuguesa, com os seus báculos, machados e figuras esquemáticas.
Mais do que retratos individuais, estas pedras parecem ter funcionado como presenças: a imagem do antepassado ou do chefe fixada na paisagem, garantindo a continuidade entre os vivos e os que os precederam.
A cronologia é longa e desigual conforme as regiões. As manifestações mais antigas associam-se ao mundo do megalitismo neolítico e calcolítico, em diálogo com antas e recintos; as mais tardias acompanham as transformações sociais da Idade do Bronze, quando a afirmação de elites guerreiras encontra na pedra um suporte privilegiado de propaganda.
Os grupos do Norte e da Estremadura
No Norte de Portugal — Trás-os-Montes, Alto Douro, litoral minhoto — domina um forte polimorfismo. Coexistem pequenas estelas com figuras esquemáticas, blocos em forma de T com nariz e arcos superciliares em relevo, e verdadeiras estátuas de maior porte, algumas armadas de punhal ou espada, como as conhecidas peças de Chaves. Trata-se de um conjunto que ilustra bem a passagem da imagem esquemática à representação mais corpórea.
Na Estremadura e no Alentejo, o panorama é mais homogéneo. As estelas-diadema apresentam o rosto inscrito num oval ou num quadrilátero, rodeado de linhas que figuram o cabelo e os colares, braços estilizados reduzidos a um traço com dedos e, por vezes, atributos como o cinturão. Esta série, com componente feminina marcada pela presença de diademas, distribui-se por um território onde se concentram alguns dos mais notáveis monumentos verticais da pré-história peninsular, do Menir dos Almendres ao colossal Menir da Meada.
As estelas de guerreiro do Bronze do Sudoeste
O capítulo mais espetacular abre-se já na Idade do Bronze, no Sudoeste peninsular. As chamadas estelas alentejanas e, mais tarde, as estelas do Bronze Final ou de tipo extremenho substituem a figura humana inteira por um repertório de objetos de prestígio gravados na pedra: espadas, punhais, machados, lanças, escudos circulares e o ainda mal interpretado sinal “ancoriforme”. É na região a ocidente de Beja que se concentra o maior número destes monumentos funerários de toda a península, identificando sepulturas de chefes que dominavam pequenos povoados das planuras.
Alguns destes monólitos, sobretudo já no limiar da Idade do Ferro, integram inscrições na chamada escrita do Sudoeste, como sucede na célebre Estela do Guerreiro de Almodôvar — testemunho de que estas pedras continuavam a marcar territórios e memórias muito depois de erguidas as primeiras estátuas-menir. No seu conjunto, estelas e estátuas-menir constituem um dos dossiês mais ricos e debatidos da arqueologia portuguesa, pela forma como articulam escultura, ritual e poder ao longo de quatro milénios.
Perguntas frequentes
- Qual é a diferença entre uma estátua-menir e uma estela decorada?
- A estátua-menir é um bloco trabalhado em volume, que sugere a forma de um corpo humano, enquanto a estela apresenta uma superfície plana onde a figura ou os atributos são gravados ou incisos. Na prática, as duas categorias confundem-se e há monumentos de transição.
- Que figuras se gravam nas estelas da Idade do Bronze do Sudoeste?
- As estelas alentejanas e do Bronze Final mostram sobretudo armas e objetos de prestígio — espadas, punhais, machados, lanças, escudos e o enigmático sinal 'ancoriforme' —, associados à afirmação de chefes guerreiros. Algumas estelas femininas exibem diademas e colares.
- Onde se podem ver estátuas-menir em Portugal?
- Existem exemplares no Norte (Trás-os-Montes, Chaves, Esposende), no Alentejo e na Estremadura. Muitas peças encontram-se hoje em museus, como o Museu Nacional de Arqueologia, em Lisboa, e museus regionais.