Arqueologia

A Idade do Bronze em Portugal

A Idade do Bronze em Portugal: povoados, metalurgia, cistas e estelas do Bronze do Sudoeste e do Bronze Atlântico no território português (c. 2200–700 a.C.).

A Idade do Bronze em Portugal
Duca696, CC BY-SA 3.0 — Wikimedia Commons

A Idade do Bronze designa, no território que viria a ser Portugal, o longo período da pré-história recente em que a metalurgia do bronze — liga de cobre e estanho — se generalizou como base da cultura material, do prestígio social e das redes de troca. Sucedendo ao Calcolítico e antecedendo a Idade do Ferro, estende-se em termos amplos de cerca de 2200 a 700 a.C., com cronologias e ritmos que variam sensivelmente entre o Norte atlântico e o Sul interior. Não há uma única “cultura do Bronze” portuguesa, mas antes um mosaico de tradições regionais, ligadas entre si por circuitos de circulação de metais e de ideias.

Do colapso calcolítico às comunidades do Bronze

A passagem para a Idade do Bronze coincide, em boa parte do Centro e Sul, com a desestruturação dos grandes povoados fortificados calcolíticos da Estremadura, como Vila Nova de São Pedro e o Castro do Zambujal, cujas muralhas e bastiões deixam de ser mantidos. As comunidades do Bronze Antigo tendem a dispersar-se em habitats abertos, frequentemente próximos dos vales e das melhores terras agrícolas, com uma economia assente na agricultura, na pastorícia e na exploração local de recursos metálicos.

Em paralelo, esbatem-se as práticas funerárias coletivas associadas ao megalitismo, substituídas por enterramentos cada vez mais individualizados. Esta mudança no tratamento dos mortos é um dos marcadores mais nítidos da nova ordem social que se afirma ao longo do II milénio a.C.

O Bronze do Sudoeste

No Sul de Portugal e em áreas contíguas do sudoeste peninsular desenvolveu-se o chamado Bronze do Sudoeste, organizado tradicionalmente em horizontes sucessivos — Ferradeira, Atalaia e Santa Vitória — entre, grosso modo, finais do III milénio e os inícios do I milénio a.C. Caracteriza-o o enterramento individual em cista de lajes de pedra, em que o defunto era acompanhado por um punhal ou faca de bronze e, por vezes, por adornos. Algumas sepulturas mais monumentais apresentam à superfície pavimentos circulares ou estruturas com vários compartimentos.

As estelas decoradas do Sudoeste, gravadas com escudos, espadas, lanças, espelhos e, na fase final, carros de guerra, constituem um dos mais eloquentes testemunhos europeus da ideologia guerreira da Idade do Bronze.

Estas estelas — primeiro as “alentejanas”, depois as do tipo guerreiro — distribuem-se sobretudo pelo Alentejo e Baixo Alentejo, e as mais tardias chegam a incorporar inscrições em escrita do Sudoeste (tartéssica), já no limiar da Idade do Ferro.

Metalurgia e o Bronze Atlântico

Durante o Bronze Final, sobretudo entre cerca de 1300 e 700 a.C., o Ocidente peninsular integrou-se plenamente na esfera do Bronze Atlântico, uma vasta rede de contactos marítimos que ligava Portugal à Galiza, à Bretanha, à Cornualha, à Irlanda e à Grã-Bretanha. O território português era um dos principais centros produtores de metal, valorizado em particular pelas suas reservas de estanho, indispensável ao fabrico do bronze e procurado até no Mediterrâneo.

Deste período datam conjuntos metálicos de grande qualidade: machados de talão e de alvado, espadas, pontas de lança, caldeiros, espetos e ganchos de carne associados a banquetes de elite, bem como notável ourivesaria. O depósito metalúrgico do castro de Nossa Senhora da Guia, em Baiões (São Pedro do Sul), é uma referência incontornável para a metalurgia do Bronze Final do Centro de Portugal, enquanto peças de ouro como o colar de Sintra evidenciam o brilho técnico e simbólico destas comunidades. Muitos destes objetos chegaram até nós em depósitos ou achados deposicionais, por vezes em contextos aquáticos, sugerindo práticas rituais.

No início do I milénio a.C., a rede atlântica entra em declínio, à medida que a difusão do ferro torna progressivamente obsoletos os circuitos do estanho e do bronze, abrindo caminho às transformações que marcariam a Idade do Ferro e, no Norte, à consolidação da cultura dos castros. O estudo destas comunidades é hoje parte central da arqueologia portuguesa dedicada à proto-história.

Perguntas frequentes

Quando decorreu a Idade do Bronze em Portugal?
Em termos genéricos, entre cerca de 2200 e 700 a.C., na sequência do Calcolítico e até ao início da Idade do Ferro. A periodização varia consoante as regiões, distinguindo-se um Bronze Antigo, Médio e Final.
O que é o Bronze do Sudoeste?
É a cultura da Idade do Bronze do Sul de Portugal e áreas vizinhas do sudoeste de Espanha, caracterizada por enterramentos individuais em cista, faca de bronze como espólio e, mais tarde, pelas estelas decoradas alentejanas e do tipo guerreiro.
O que era o Bronze Atlântico?
Designa a rede de trocas marítimas que, sobretudo entre c. 1300 e 700 a.C., ligou as comunidades costeiras de Portugal, Galiza, Bretanha, Cornualha, Irlanda e Grã-Bretanha, partilhando tipos metálicos como machados, espadas, caldeiros e objetos de ourivesaria.

Fontes

  1. South-Western Iberian Bronze (Wikipedia)
  2. Atlantic Bronze Age (Wikipedia)
  3. A Idade do Bronze em Portugal: os dados e os problemas (Vieira)