Períodos & Estilos
Estilo Neoárabe em Portugal
O estilo neoárabe em Portugal: o revivalismo orientalista oitocentista, de Sintra à Praça de Touros do Campo Pequeno e ao Salão Árabe do Porto.
O estilo neoárabe — também dito neomourisco, neomudéjar ou neoislâmico — foi uma das correntes da arquitetura romântica que percorreu a Europa oitocentista, recriando livremente as formas da arte islâmica medieval. Em Portugal afirmou-se sobretudo na segunda metade do século XIX, num momento de estabilização política e de crescente apetência pelo pitoresco e pelo exótico. Associado ao luxo e à evasão, foi também, pela despesa que a sua decoração exigia, um revivalismo relativamente raro quando comparado com o neogótico ou o neomanuelino.
Um capricho importado do Oriente imaginado
O neoárabe não nasceu de uma continuidade local com a arquitetura andalusina ou mudéjar, mas de um olhar romântico e literário sobre o Oriente. O fascínio pela Alhambra de Granada, divulgado por gravuras, álbuns e relatos de viajantes, ofereceu a gramática decorativa de que os arquitetos se serviram: o arco em ferradura, o arco polilobado, a cúpula bolbosa, o estuque rendilhado, a azulejaria geométrica e a caligrafia ornamental. Foi um Oriente reconstruído à distância, mais sonhado do que estudado, integrado no vasto repertório dos revivalismos do Romantismo.
O neoárabe português é menos a memória de al-Ândalus do que a fantasia de um Oriente lido em livros — uma arquitetura de cenário, onde o exótico vale como prazer e não como raiz.
De Sintra à capital: os primeiros ensaios
Foi por Sintra que o gosto chegou, pela mão do rei consorte D. Fernando II. Ao reformular o antigo convento manuelino que se tornaria o Palácio Nacional da Pena, o monarca introduziu, entre torreões e ameias, elementos de inspiração árabe que fariam escola. Pouco depois, o industrial inglês Francis Cook e o arquiteto James Knowles transformaram o Palácio de Monserrate numa síntese exuberante de motivos orientais, com a sua sala central coroada por uma cúpula filigranada — uma espécie de pavilhão de Brighton transposto para a serra. Ainda em Sintra, a Quinta do Relógio, atribuída a António Tomás da Fonseca, prolongaria este imaginário de refúgio exótico.
A consagração: Campo Pequeno e o Salão Árabe
O exemplo mais célebre do neoárabe em Portugal é a Praça de Touros do Campo Pequeno, em Lisboa. Projetada por António José Dias da Silva e inaugurada a 18 de agosto de 1892 na presença da família real, ergue-se sobre uma estrutura de ferro e tijolo, materiais modernos dissimulados sob uma vestidura islamizante. A fachada contínua, revestida a tijolo de cor natural para sublinhar o caráter mudéjar, abre-se em arcos de volta perfeita e em ferradura, rematada por torreões com cúpulas bolbosas e por um zimbório central. É o manifesto português do estilo, onde a engenharia oitocentista e a decoração orientalista se fundem.
No Porto, o Salão Árabe do Palácio da Bolsa, decorado a partir de meados do século sob projeto de Gustavo de Sousa e prosseguido por Tomás Soller, levou ao extremo o virtuosismo ornamental: paredes e abóbadas cobertas de estuques dourados e de inscrições caligráficas que reinterpretam a Alhambra como cenário de representação burguesa. A par destes marcos, multiplicaram-se casas e pavilhões particulares — como a célebre Casa Neoárabe da Rua José Falcão, no Porto —, que faziam do exotismo um sinal de distinção e de cosmopolitismo.
Um legado de pedra, ferro e fantasia
Mais do que uma escola coerente, o neoárabe foi um gesto de gosto: episódico, dispendioso e profundamente ligado ao espírito romântico e ao Orientalismo da época. Sobreviveu sobretudo em edifícios de lazer, residências de excecional ostentação e equipamentos de espetáculo, onde o exótico podia florescer sem as cautelas do uso quotidiano. Hoje, esses edifícios são testemunhos preciosos de como a Europa oitocentista imaginou o Oriente — e de como Portugal, com a sua própria memória islâmica, escolheu recriá-lo não como herança, mas como sonho.
Perguntas frequentes
- O que é o estilo neoárabe?
- É uma corrente revivalista e romântica do século XIX que recriava as formas da arte islâmica medieval — arcos em ferradura, cúpulas bolbosas, estuques rendilhados e revestimentos cerâmicos —, fruto do fascínio europeu pelo exótico e pelo Oriente.
- Qual é o edifício neoárabe mais conhecido de Lisboa?
- A Praça de Touros do Campo Pequeno, projetada por António José Dias da Silva e inaugurada em 1892, com a sua fachada de tijolo aparente, torreões e arcos em ferradura.
- Onde chegou primeiro a Portugal o gosto neoárabe?
- A Sintra, através do rei D. Fernando II e da remodelação romântica do Palácio da Pena, seguida do Palácio de Monserrate, reformulado pelo industrial inglês Francis Cook.