Património Imaterial

Festa do Povo de Campo Maior

Festa do Povo de Campo Maior: ruas ornamentadas com milhões de flores de papel pela população, distinção da UNESCO em 2021 no Alto Alentejo.

Festa do Povo de Campo Maior
Rui Beja, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

A Festa do Povo de Campo Maior — também conhecida como Festas do Povo, Festas das Flores ou Festas dos Artistas — é uma manifestação coletiva única em que os habitantes desta vila raiana do distrito de Portalegre revestem as suas ruas com milhões de flores de papel, feitas à mão e mantidas em segredo até à véspera. Em dezembro de 2021, a UNESCO inscreveu-a na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (referência 01604), consagrando uma das tradições mais expressivas do Alto Alentejo e do património cultural imaterial português.

Uma vila transformada numa noite

O traço mais surpreendente da festa é o segredo. Durante meses — por vezes quase um ano —, os moradores de cada rua reúnem-se à noite, em casas e armazéns, para conceber e construir os ornamentos: flores, arcos, painéis e cenários inteiros, elaborados em papel crepe, cartão e arame, sem qualquer apoio industrial. Cada comissão de rua guarda o seu projeto longe dos olhares vizinhos, num ambiente de saudável rivalidade artística.

Na véspera da abertura, as decorações são finalmente montadas. A vila, que adormece despojada, acorda integralmente coberta de cor: tetos de flores, fachadas vestidas, ruas convertidas em galerias a céu aberto. É esta metamorfose súbita — o esforço anónimo de centenas de pessoas revelado de uma só vez — que dá à festa o seu caráter quase mágico.

Não há flores compradas nem decoradores profissionais: tudo nasce das mãos da própria população, que se organiza por ruas e decide, coletivamente, quando voltar a fazer a festa.

Raízes religiosas e identidade coletiva

A origem das festas está ligada ao culto de São João Baptista, padroeiro de Campo Maior desde o século XVI. Com o tempo, a dimensão devocional foi-se entrelaçando com a afirmação da comunidade, e o costume de ornamentar as ruas com flores de papel consolidou-se ao longo do século XIX e XX como expressão central da identidade local.

A festa não obedece a um calendário regular. Realiza-se quando a população assim o decide, em assembleia informal, o que pode significar intervalos de vários anos entre edições. Essa imprevisibilidade reforça o sentido de acontecimento extraordinário e mobiliza, em cada celebração, praticamente toda a vila. O saber-fazer transmite-se em família e nas escolas, garantindo a continuidade das técnicas de construção das flores entre gerações.

Reconhecimento internacional e património próximo

A candidatura portuguesa, aprovada na 16.ª sessão do Comité Intergovernamental da UNESCO, sublinhou o valor da festa enquanto exemplo de criatividade comunitária e de coesão social, em que portas abertas e ausência de distinções sociais marcam os dias de celebração. A inscrição integra-se no conjunto crescente do património imaterial da Humanidade reconhecido em Portugal, ao lado de outras expressões alentejanas como o Cante Alentejano.

Campo Maior situa-se a poucos quilómetros da fronteira espanhola, num território de fortificações e de paisagem de planície. Quem visita a vila encontra, além da memória viva das festas, um centro histórico de feição raiana e a tradição cafeeira que também distingue a localidade. A Festa do Povo continua, contudo, a ser o seu emblema maior: a prova de que um povo inteiro pode, em segredo e em conjunto, fazer florescer as suas ruas.

Perguntas frequentes

Quando se realiza a Festa do Povo de Campo Maior?
Não tem data fixa: realiza-se de forma irregular, por decisão coletiva da população, com intervalos que podem chegar a vários anos. Decorre tradicionalmente em agosto, associada ao culto de São João Baptista, padroeiro da vila.
Porque é que a festa foi reconhecida pela UNESCO?
Em 2021 foi inscrita na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (ref. 01604) por ilustrar a criatividade comunitária, o saber-fazer das flores de papel e um forte sentido de pertença coletiva.
Como são feitas as decorações das ruas?
São inteiramente artesanais, em papel e cartão, produzidas em segredo pelos moradores de cada rua durante meses. Só são reveladas na véspera da festa, transformando a vila numa noite.

Fontes

  1. Community festivities in Campo Maior — UNESCO Intangible Cultural Heritage
  2. Festas do Povo de Campo Maior — Comissão Nacional da UNESCO
  3. Festas do Povo de Campo Maior — Inventário Nacional do PCI (Matriz PCI)