Património Mundial
Festas do Povo de Campo Maior
As Festas do Povo de Campo Maior, no Alentejo, em que as ruas se cobrem de flores de papel. Património Cultural Imaterial da Humanidade desde 2021.
Nas Festas do Povo de Campo Maior, uma vila do distrito de Portalegre, no Alentejo, as ruas desaparecem sob milhões de flores de papel. Conhecidas também por Festas das Flores ou Festas dos Artistas, constituem uma das mais singulares expressões da cultura popular portuguesa e estão inscritas na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO desde 15 de dezembro de 2021.
Uma festa que o povo decide
O traço mais notável destas festas é não terem periodicidade fixa. Não obedecem a um calendário, a uma efeméride ou a uma decisão municipal: realizam-se quando o povo, espontaneamente, decide fazê-las. Por isso podem mediar muitos anos entre edições, o que confere a cada uma um caráter irrepetível e profundamente esperado. A organização nasce de baixo para cima, através de comissões de rua que decidem participar, definem a data e concebem, em segredo, o tema, as cores e os motivos decorativos do seu troço.
Durante cerca de nove meses, vizinhos de todas as idades reúnem-se em casas e garagens para recortar, dobrar e colar flores, festões e estruturas em papel e cartão. O sigilo é parte essencial do ritual: cada rua guarda o seu projeto até à véspera, montando tudo de uma só vez, durante a noite. Quando a vila acorda, está irreconhecível — e instala-se uma saudável rivalidade entre ruas para apurar qual terá o adorno mais original e luminoso.
O extraordinário das Festas do Povo não está apenas no resultado visual, mas no facto de uma comunidade inteira aceitar trabalhar meses, em segredo, por uma transformação que dura poucos dias e que ninguém impõe.
Raízes e significado
A tradição de ornamentar as ruas remonta a 1897, embora as suas raízes mergulhem no culto de São João Baptista, padroeiro de Campo Maior desde o século XVI. As celebrações começaram ligadas às festividades religiosas em honra do santo, dimensão que foi perdendo o caráter formal ao longo do século XX, à medida que o protagonismo passava inteiramente para a iniciativa popular e para o engenho coletivo dos seus artistas anónimos.
Mais do que um espetáculo, as festas são um mecanismo de coesão social: reforçam o sentido de pertença, transmitem saberes manuais de geração em geração e mobilizam emigrantes e familiares dispersos, que regressam à vila para participar. Esta vitalidade comunitária aproxima-as de outras manifestações vivas do Património Cultural Imaterial de Portugal, do Cante Alentejano, igualmente alentejano, às Festas de Inverno e Caretos de Podence, em Trás-os-Montes.
Reconhecimento internacional
A inscrição na UNESCO, com o número de referência 01604, integrou Campo Maior no restrito conjunto de tradições portuguesas distinguidas como Património da Humanidade na sua vertente imaterial. O reconhecimento valoriza não um monumento, mas um saber-fazer e uma prática social — a capacidade de uma comunidade pequena se reinventar coletivamente, ao seu próprio ritmo, e de fazer da rua uma obra de arte efémera e partilhada.
Perguntas frequentes
- Quando se realizam as Festas do Povo de Campo Maior?
- Não têm calendário fixo. Realizam-se apenas quando o povo da vila decide organizá-las, podendo passar muitos anos entre edições. São tradicionalmente celebradas em torno da festa de São João Baptista, no verão.
- Porque é que as ruas se enchem de flores de papel?
- Cada rua, organizada em comissão, prepara durante cerca de nove meses milhares de flores e adornos de papel e cartão, mantidos em segredo até serem montados de uma só vez, transformando a vila numa noite.
- Desde quando são Património da UNESCO?
- As Festas do Povo de Campo Maior foram inscritas na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO a 15 de dezembro de 2021, com o número de referência 01604.