Património Imaterial

Gaita de Foles Mirandesa

A gaita de foles mirandesa, aerofone artesanal do Planalto Mirandês que acompanha os lhaços dos pauliteiros e as danças rituais de Trás-os-Montes.

Gaita de Foles Mirandesa
Picodunna, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

A gaita de foles mirandesa é o aerofone emblemático do Planalto Mirandês, o extremo nordeste de Trás-os-Montes onde Portugal confina com as terras de Sanábria, Aliste e Sayago, no lado espanhol. Instrumento de construção integralmente artesanal, partilha com as gaitas dessas comarcas raianas uma mesma família morfológica e sonora: uma voz potente, talhada para o ar livre das festas, das romarias e das danças. É, a par disso, um dos exemplares mais arcaicos deste tipo de instrumento que subsistem na Europa, o que faz dela um documento vivo da história musical do interior peninsular.

Anatomia de um instrumento raiano

A gaita assenta num fole feito do couro inteiro de uma pele de cabrito, que funciona como reservatório de ar e garante a continuidade do som. Nesse fole encaixam-se três tubos. O ponteiro, cónico e dotado de palheta dupla, é onde o gaiteiro digita a melodia; a sua furação larga e a palheta robusta explicam o volume sonoro característico do instrumento. O bordão, de grandes dimensões, soa de forma contínua cerca de duas oitavas abaixo do ponteiro, criando o típico tapete grave das gaitas peninsulares. Por fim, o assoprete é o tubo por onde o tocador insufla o ar. As madeiras tradicionais — sobretudo o buxo — e os adornos de tecido coloridos do fole conferem a cada exemplar uma identidade própria, fruto da mão do artesão.

A afinação não obedece a um padrão fixo: consoante o construtor, a gaita pode situar-se em Si, Si bemol ou Lá. A escala desdobra-se frequentemente num modo dórico, com terceira menor e sexta maior, uma estrutura modal que aproxima o seu som das músicas antigas e do canto e da flauta pastoril (a fraita, em mirandês) da mesma região.

A voz que acompanha os pauliteiros

Mais do que um objeto, a gaita é indissociável de uma figura — o gaiteiro — e de um contexto. O seu papel maior é acompanhar as danças dos pauliteiros de Miranda, tocando os lhaços, as melodias rituais sobre as quais os dançarinos batem os paus em coreografias de raiz guerreira. Em conjunto com a caixa e o bombo, a gaita estrutura ainda baltes agarrados, jotas, mourisqueiras e carvalhesas que animavam as festas do calendário rural.

A gaita mirandesa não toca para ser ouvida em silêncio: nasceu para mover corpos, marcar o passo dos dançarinos e cobrir o ruído das festas ao ar livre. É música de função, não de concerto — e é nessa função que sobrevive.

Esta dimensão coletiva inscreve a gaita no mesmo universo cultural que distingue o Planalto Mirandês, território onde se fala a língua mirandesa, segundo idioma oficial de Portugal, e onde perduram rituais únicos. A gaita pertence assim a um conjunto coerente de expressões locais, tão singulares como a paisagem de Miranda do Douro que as guarda.

Do limiar da extinção ao renascimento

Durante o século XX, a tradição quase se extinguiu. A emigração — para o Brasil e para a França —, o despovoamento das aldeias e a concorrência de instrumentos como a concertina reduziram drasticamente o número de gaiteiros. Coube a etnógrafos e antropólogos, com destaque para Ernesto Veiga de Oliveira a partir dos anos 1960, documentar o repertório e os últimos construtores antes que o saber desaparecesse.

O ponto de viragem chegou em 2007, com o Primeiro Congresso Internacional da Gaita de Foles Mirandesa, realizado em Miranda do Douro, que fixou a designação correta do instrumento e lançou o mote de “nem mais uma festa sem gaita”. Desde então, o número de praticantes cresceu de forma notável, sustentado por escolas, oficinas de construção e grupos jovens. A gaita junta-se, deste modo, a outras famílias do som tradicional português — dos cordofones tradicionais às músicas rituais do interior — num património cultural imaterial em que a memória continua a viver na prática das comunidades, e não em arquivos.

Perguntas frequentes

O que é a gaita de foles mirandesa?
É um aerofone de palheta dupla, alimentado por um fole de pele de cabrito, característico do Planalto Mirandês, em Trás-os-Montes. É composta por um ponteiro cónico onde se executa a melodia, um bordão grave que soa de forma contínua e um assoprete por onde o tocador insufla o ar, sendo um dos exemplares mais arcaicos deste tipo de instrumento na Europa.
Onde se toca a gaita mirandesa?
Sobretudo no Planalto Mirandês, nos concelhos de Miranda do Douro, Vimioso e Mogadouro, no distrito de Bragança, território onde se fala a língua mirandesa. Acompanha tradicionalmente os pauliteiros, as romarias e as festas rituais da região.
Que relação tem com os pauliteiros de Miranda?
O gaiteiro é, por excelência, o músico que acompanha as danças dos pauliteiros, tocando os lhaços — as melodias rituais sobre as quais os dançarinos batem os paus. Em conjunto com a caixa e o bombo, a gaita fornece o suporte sonoro destas danças guerreiras.

Fontes

  1. Wikipédia — Gaita mirandesa
  2. RTP Ensina — O gaiteiro mirandês
  3. Gaita mirandesa — Wikidata (Q5517377)