Monumentos

Igreja da Misericórdia do Porto

Igreja maneirista e barroca da rua das Flores, no Porto, com fachada de Nicolau Nasoni e guardiã do célebre painel Fons Vitae.

Igreja da Misericórdia do Porto
Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0 — Wikimedia Commons

A Igreja da Misericórdia do Porto ergue-se a meio da rua das Flores, no coração do centro histórico da cidade, e constitui o núcleo monumental da Santa Casa da Misericórdia do Porto, instituição fundada em 1499. O templo conjuga uma estrutura maneirista quinhentista com uma exuberante fachada barroca, tornando-se um dos exemplares mais notáveis da arquitetura religiosa portuense. Está classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1977.

Construção e remodelações

A construção da igreja iniciou-se em 1555, num terreno cedido à confraria na então recém-aberta rua das Flores, artéria nobre da expansão urbana renascentista do Porto. O templo foi benzido a 13 de dezembro de 1559 e a capela ficou concluída em 1584, segundo um risco de feição maneirista. Em abril de 1621, um raio destruiu parte da fachada, abrindo um longo ciclo de obras e reparações.

A grande transformação do edifício ocorreu em meados do século XVIII. Após o colapso da abóbada em 1748, a Santa Casa promoveu uma profunda remodelação confiada ao arquiteto italiano Nicolau Nasoni, figura central do barroco do Norte de Portugal e autor da vizinha Torre dos Clérigos. A nova fachada, datada de 1750 por inscrição no arco central, articula colunas, frontões, nichos e decoração de granito lavrado com pormenores rococó, num jogo cenográfico característico do mestre. No interior, os azulejos foram renovados em 1866 e as imagens dos evangelistas repintadas em 1888.

O painel Fons Vitae

O maior tesouro associado à igreja é o painel Fons Vitae (“Fonte da Vida”), uma tábua flamenga de grandes dimensões — cerca de 267 por 210 centímetros, a óleo sobre carvalho — datada de aproximadamente 1515-1517 e atribuída ao pintor Colijn de Coter. A obra representa o rei D. Manuel I, ajoelhado com a sua família, junto à fonte do sangue de Cristo crucificado, fundindo a iconografia régia manuelina com o tema devocional do Calvário e da Piedade.

Encomendado provavelmente na Flandres para a Misericórdia portuense, o Fons Vitae testemunha a pujança da cidade e os seus laços com a Europa do Norte no início de Quinhentos. É uma das mais importantes pinturas flamengas existentes em Portugal e um marco da circulação dos primitivos portugueses e flamengos no reino. A peça encontra-se hoje exposta no museu da instituição.

O museu e a envolvente

Desde 2015, a igreja integra o percurso do MMIPO – Museu da Misericórdia do Porto, que articula o templo, a Casa do Despacho e o acervo de pintura, ourivesaria e documentação reunido ao longo de séculos pela Santa Casa. A sua localização inscreve-a no roteiro patrimonial da baixa, a poucos passos da Sé do Porto e da Igreja de São Francisco, num conjunto que ilustra a riqueza do maneirismo em Portugal e do barroco na cidade. A rua das Flores, recuperada nas últimas décadas, devolveu visibilidade a este monumento outrora algo esquecido.

Perguntas frequentes

Quem desenhou a fachada da Igreja da Misericórdia do Porto?
A fachada barroca, datada de 1750, é atribuída ao arquiteto italiano Nicolau Nasoni, autor da intervenção setecentista no templo.
O que é o painel Fons Vitae?
É uma grande tábua flamenga de cerca de 1515-1517, atribuída a Colijn de Coter, que representa o rei D. Manuel I e a família real junto à fonte do sangue de Cristo crucificado.
A igreja pode ser visitada?
Sim. Desde 2015 integra o percurso do MMIPO – Museu da Misericórdia do Porto, que reúne a igreja, a Casa do Despacho e a coleção da Santa Casa.

Fontes

  1. Igreja da Misericórdia do Porto — Wikipédia
  2. MMIPO — A Igreja
  3. MMIPO — Fons Vitae