Períodos & Estilos
Maneirismo em Portugal
O Maneirismo em Portugal (c. 1540-1650): a transição entre Renascimento e Barroco, marcada pela sobriedade da arquitetura chã e pela Contrarreforma.
O Maneirismo foi a linguagem artística dominante em Portugal entre meados do século XVI e meados do século XVII, ocupando o intervalo entre a plenitude do Renascimento e a exuberância do Barroco. Mais do que um estilo decorativo, traduziu uma sensibilidade nova: a consciência de que as regras clássicas, longe de serem um destino, podiam ser dobradas, alongadas e recombinadas. Em vez do equilíbrio sereno, o Maneirismo cultivou a tensão, a elegância calculada e, sobretudo em Portugal, uma sobriedade severa que se tornaria marca distintiva.
Da bela maneira à Contrarreforma
A historiografia identifica três momentos na evolução do Maneirismo português. Num primeiro tempo, a partir da década de 1540, absorvem-se os modelos italianos divulgados pelos tratados de Sebastiano Serlio e de Vignola, lidos com avidez nas oficinas régias. Segue-se o «triunfo da bela maneira», em que a forma alongada, a torção das figuras e a invenção dos pontos de vista se assumem como valor próprio. Por fim, com o Concílio de Trento e a afirmação da Contrarreforma, a arte é chamada a um discurso mais coerente e didático, ao serviço da pregação e da clareza doutrinária.
Na pintura, esta trajetória vê-se na obra de mestres como Gregório Lopes, Cristóvão de Figueiredo e Garcia Fernandes — por vezes tão próximos que se confundem sob a designação de «Mestres de Ferreirim» — e, mais tarde, em António Campelo, Gaspar Dias ou Diogo de Contreiras, que renovam a paleta cromática e dão nova expressividade às figuras sagradas.
A arquitetura chã
É na arquitetura que o Maneirismo português ganha o seu rosto mais original. A fachada despoja-se de ornamento, organiza-se por planos limpos e proporções claras, num registo a que se chamou arquitetura chã — sóbria por fora, frequentemente sumptuosa por dentro, onde o azulejo e a talha dourada compensariam, no século seguinte, a nudez exterior. Esta economia de meios servia tanto a Igreja da Contrarreforma como o Estado, sobretudo durante a União Ibérica, sendo facilmente reproduzível em todo o império.
A grande lição do Maneirismo português não está no que acrescenta, mas no que retira: ao despir a parede, transforma a sobriedade num ato de gosto e de disciplina.
O ponto de viragem situa-se no claustro principal do Convento de Cristo, em Tomar, iniciado por Diogo de Torralva em 1554 e concluído pelo italiano Filippo Terzi. A sua composição em dois andares de arcos serlianos é frequentemente apontada como a primeira obra plenamente maneirista do país. Terzi, engenheiro e arquiteto chegado da corte, viria a marcar a paisagem religiosa de Lisboa, designadamente no Mosteiro de São Vicente de Fora, começado em 1582 e modelo para gerações seguintes.
Templos da Companhia de Jesus
A difusão do modelo de igreja jesuíta — espaço amplo, de nave única, pensado para a pregação — foi decisiva. A Igreja de São Roque, em Lisboa, erguida entre 1565 e 1587 com planta de Afonso Álvares e remate de Terzi, é exemplar dessa fórmula: exterior contido, interior onde sobrevive o único grande teto pintado maneirista da capital. Em Coimbra, a Sé Nova, projetada por Baltazar Álvares, repete o esquema com igual rigor. Quando, no século XVII, este vocabulário se carregar de movimento e ouro, estará lançada a ponte para a arquitetura barroca portuguesa, que herdaria do Maneirismo a planta sóbria sobre a qual fez explodir a decoração.
Perguntas frequentes
- O que distingue o Maneirismo do Renascimento em Portugal?
- Enquanto o Renascimento procurava o equilíbrio e a harmonia clássicos, o Maneirismo tensiona essas regras: alonga as figuras na pintura, multiplica os pontos de vista e, na arquitetura, depura a fachada até uma sobriedade quase nua, a chamada arquitetura chã.
- Quem foram os principais arquitetos maneiristas portugueses?
- Diogo de Torralva, autor do claustro principal do Convento de Cristo em Tomar; o italiano Filippo Terzi, ligado a São Vicente de Fora; e Baltazar Álvares, responsável pela Sé Nova de Coimbra.
- Quando começou e terminou o Maneirismo português?
- Afirmou-se a partir de meados do século XVI e prolongou-se até meados do século XVII, atravessando o período da União Ibérica (1580-1640) e a difusão do modelo de igreja jesuíta.