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Joalharia Tradicional Portuguesa

A joalharia tradicional portuguesa: coração de Viana, brincos à rainha, arrecadas e contas, o ouro popular do Minho lavrado em filigrana de 19,2 quilates.

Joalharia Tradicional Portuguesa
Jorge Franganillo, CC BY 2.0 — Wikimedia Commons

A joalharia tradicional portuguesa é um dos capítulos mais expressivos da ourivesaria popular do país. Concentrada sobretudo no Minho e no Douro Litoral — e tendo em Viana do Castelo o seu centro mais célebre —, designa o conjunto das joias usadas pelas mulheres do norte rural nas festas, romarias e procissões. Mais do que adorno, este “ouro popular” funcionava como reserva de valor e sinal de estatuto: ostentado ao peito sobre o traje, traduzia em metal precioso a poupança de uma família e a posição de quem o trazia.

O ouro ao peito

A imagem clássica é a da mordoma vianesa em dia de festa, com o peito coberto de ouro. O conjunto seguia uma gramática rigorosa: brincos ou arrecadas, três cordões ao pescoço, um trancelim — peça muito trabalhada da qual se suspendiam pendurezas como a borboleta, a custódia ou o crucifixo —, um fio de contas e, nas mulheres mais abastadas, a imponente gramalheira, longa corrente de elos lavrados.

Cada peça tinha nome e função próprios. As contas de Viana, esferas de ouro enfiadas em colar, eram a primeira joia que a jovem minhota adquiria, custeada com as economias da venda de ovos, frangos ou produtos da horta; primeiro maciças, tornaram-se depois ocas para aligeirar o conjunto. As arrecadas, brincos em forma de crescente que evocam modelos antigos, e os brincos à rainha — assim chamados por se terem difundido em torno dos reinados de D. Maria I e D. Maria II — completavam o adorno.

No traje minhoto, o ouro nunca é só ornamento: é poupança, é herança e é memória. Cada peça carrega o estigma do amuleto e a crença popular que a viu nascer.

O coração de Viana

De todas as peças, nenhuma se tornou tão identitária como o coração de Viana. Oco e bojudo, executado em fina chapa de ouro e rematado no topo por uma “coroa” de pontas que estilizam chamas, é depois preenchido por delicados fios de filigrana ou por granulado. Surgido no final do século XVIII, esteve primeiro associado à devoção religiosa — ao culto do Sagrado Coração de Jesus e do Imaculado Coração de Maria — antes de assumir, ao longo do século XIX, a leitura do amor profano, símbolo do laço entre o homem e a mulher.

Durante grande parte de Oitocentos e Novecentos foi conhecido como “coração do Minho”; só na segunda metade do século XX se fixou como emblema de Viana do Castelo, perdendo as conotações devocional e romântica para se tornar marca de uma região inteira. Hoje figura no acervo do Museu do Traje da própria cidade e na imaginação coletiva como ícone de Portugal.

Filigrana, a alma da técnica

A maior parte destas joias deve a sua delicadeza à filigrana, trabalho ornamental feito de fios finíssimos e pequenas esferas de metal soldadas para compor o desenho. De raízes greco-romanas, ganhou autonomia na ourivesaria portuguesa a partir do século XVII, fixando-se sobretudo em dois concelhos onde a tradição perdura: a Póvoa de Lanhoso e Gondomar, capitais do ofício. O ouro usado é o título nacional de 19,2 quilates, liga de cerca de 80% de metal precioso que confere às peças a sua tonalidade quente e a maleabilidade necessária ao fio.

Trabalhada à mão, exigindo paciência e perícia excecionais, a filigrana traduz em metal os grandes temas do imaginário popular: a natureza — flores, peixes, conchas —, a religião — cruzes e relicários — e o amor, condensado no coração. É por essa técnica, e pelas peças que dela nascem, que a joalharia tradicional se afirma como um dos ramos mais vivos das artes decorativas portuguesas, ainda hoje praticado em pequenas oficinas do norte do país.

Perguntas frequentes

O que é o ouro popular do Minho?
É o conjunto da joalharia tradicional usada pelas mulheres do norte de Portugal, sobretudo na região de Viana do Castelo, nas festas e procissões. Lavrado em ouro de 19,2 quilates, muitas vezes em filigrana, inclui o coração de Viana, os brincos à rainha, as arrecadas e os colares de contas, exibidos sobre o traje como sinal de riqueza familiar.
O que é o coração de Viana?
É a peça mais emblemática da joalharia minhota: um coração oco e bojudo, rematado por uma 'coroa' de chamas estilizadas e preenchido por fios de filigrana. Surgido no final do século XVIII, associava-se ao culto do Sagrado Coração e ao amor profano, tornando-se no século XX símbolo de Viana do Castelo.
Porque tem o ouro português 19,2 quilates?
É o título legal do ouro em Portugal: uma liga com cerca de 80% de ouro fino e 20% de outros metais, como prata ou cobre. Mais alto do que os 18 quilates comuns no mercado internacional, dá às peças uma tonalidade quente e maleabilidade adequada ao trabalho de filigrana.

Fontes

  1. Filigrana — Wikipédia
  2. O ouro do Minho — O ouro de Viana (Revista Mar)
  3. A Oficina do Ouro em Viana do Castelo — Museu do Traje