Monumentos
Mosteiro de São João de Tarouca
O Mosteiro de São João de Tarouca, no vale do Varosa, foi o primeiro cenóbio cisterciense fundado em território português, no concelho de Tarouca.
No fundo do vale do rio Varosa, na encosta da serra de Leomil, ergue-se o Mosteiro de São João de Tarouca — o primeiro cenóbio masculino da Ordem de Cister fundado em território português. A sua construção iniciou-se por volta de 1154, num momento em que a jovem monarquia procurava consolidar o povoamento e a organização eclesiástica das terras a sul do Douro. A fundação ficou intimamente ligada à figura de D. Afonso Henriques, que dotou a comunidade de carta de couto e a inseriu na rede de mosteiros que haviam de marcar a paisagem religiosa e agrária do reino.
Cister chega a Portugal
A escolha do vale do Varosa não foi casual. Os monges brancos, vindos da órbita de Claraval, procuravam lugares afastados, férteis e regados, onde pudessem conjugar a oração com o trabalho da terra segundo a regra beneditina reformada. Tarouca tornou-se cabeça de uma vasta exploração rural e modelo para outras casas da ordem na região, num movimento que viria a fixar nas imediações o vizinho Mosteiro de Salzedas. Estes cenóbios integram hoje o conjunto que se costuma percorrer através das rotas de Cister em Portugal, das quais Tarouca é o ponto fundador.
A primazia de Tarouca lembra que a presença cisterciense no país antecede a grandiosa abadia de Alcobaça: foi aqui, e não no litoral estremenho, que a Ordem de Cister deu os primeiros passos em solo português.
A igreja e os seus tesouros
A igreja conventual, de planta em cruz, conserva uma estrutura medieval de raiz românica e gótica, profundamente reformulada nas campanhas dos séculos XVII e XVIII, quando o mosteiro foi ampliado com novos edifícios — entre eles um colossal dormitório de dois pisos. No interior guarda-se um dos mais notáveis conjuntos de pintura quinhentista portuguesa: os retábulos atribuídos a Gaspar Vaz, discípulo de Grão Vasco e figura central da escola de Viseu, incluindo um vivíssimo São Pedro que se conta entre as obras mais celebradas da pintura nacional do período.
No transepto repousa D. Pedro Afonso, conde de Barcelos, filho ilegítimo de D. Dinis e autor do Livro de Linhagens. Falecido em 1354, foi sepultado num imponente sarcófago de granito, ornado com cenas de caça ao javali, frequentemente apontado como o maior túmulo gótico em pedra granítica da Península Ibérica. O monumento testemunha o prestígio que o mosteiro alcançou junto da alta nobreza e da casa real.
Decadência e recuperação
A extinção das ordens religiosas, decretada em 1834, marcou o início do declínio. A igreja foi convertida em paroquial, mas as dependências monásticas foram vendidas em hasta pública e, ao longo de décadas, exploradas como pedreira, perdendo-se grande parte do edificado conventual. O Estado iniciou em 1996 a aquisição gradual da área monástica, a que se seguiram campanhas de restauro e de escavação arqueológica entre 1998 e 2010, que devolveram à vista as fundações do claustro, da cozinha, dos dormitórios e das oficinas.
Classificado como Monumento Nacional, São João de Tarouca apresenta-se hoje como um sítio onde se cruzam a arquitetura, a pintura e a arqueologia. A par dos conjuntos monásticos da região e da paisagem cultural do vale do Varosa, próximo de Lamego, o mosteiro permite ler, num único lugar, oito séculos de história monástica portuguesa — desde o impulso fundador do século XII até à ruína oitocentista e à memória que a investigação contemporânea soube resgatar.
Perguntas frequentes
- Porque é considerado o primeiro mosteiro cisterciense de Portugal?
- A construção do cenóbio masculino de São João de Tarouca iniciou-se por volta de 1154, sendo a primeira edificação da Ordem de Cister levantada em território português, anterior à de Alcobaça.
- Quem está sepultado no mosteiro?
- Encontra-se aqui o túmulo de D. Pedro Afonso, conde de Barcelos, filho de D. Dinis e autor do Livro de Linhagens, falecido em 1354. O seu sarcófago de granito é um dos maiores da Península Ibérica.
- O mosteiro pode ser visitado?
- Sim. A igreja conserva o culto e o conjunto monástico, recuperado pelo Estado a partir de 1996, está aberto à visita, integrando o Centro Interpretativo e a área arqueológica escavada.