Patrimónios Estudos sobre o património cultural português

Arqueologia

Vias romanas e calçadas romanas em Portugal

As vias e calçadas romanas em Portugal: a rede da Lusitânia e da Gallaecia, o Itinerário de Antonino, a técnica construtiva, os miliários, as pontes e a Geira.

Perguntas frequentes Fontes
Troço de via romana em Portugal
Vitor Oliveira, CC BY-SA 2.0 — Wikimedia Commons
Construção
Séculos I a.C. – III d.C.
Estilo
Engenharia romana

As vias romanas — e as calçadas que as pavimentavam nos troços mais exigentes — constituem o maior empreendimento de engenharia da Antiguidade conservado em território português. Construídas sobretudo entre os finais do século I a.C. e o século III d.C., integraram a província da Lusitânia e o sul da Gallaecia na administração imperial, ligando os principais núcleos urbanos — Olisipo (Lisboa), Ebora (Évora), Scallabis (Santarém), Conimbriga, Bracara Augusta (Braga), Aquae Flaviae (Chaves) — a portos, minas e à capital provincial, Emerita Augusta (Mérida). Mais do que simples caminhos, eram obras ao serviço da administração, do exército e do comércio, e muitos dos seus traçados continuam fossilizados sob estradas nacionais e caminhos rurais.

Uma rede ao serviço do Império

O conhecimento que hoje temos da malha viária assenta sobretudo no Itinerário de Antonino, compilação tardo-imperial que enumera os percursos oficiais, as estações de muda (mansiones) e as distâncias intermédias expressas em milhas romanas, de cerca de 1480 metros. Das cerca de trinta e quatro vias atribuídas à Hispânia, aproximadamente onze atravessavam o atual território português.

Entre os eixos principais contam-se os itinerários entre Olisipo e Emerita Augusta — como a Via XVI —, a ligação de Olisipo a Bracara Augusta e o conjunto de vias do noroeste que, a partir de Braga, demandavam Asturica Augusta (Astorga): a Via XVII por Chaves, a Via XVIII ou Via Nova pelo Gerês e a Via XIX por Ponte de Lima. No extremo meridional, ramais uniam Salacia, Pax Iulia (Beja) e Ossonoba (Faro), articulando o Algarve com o interior alentejano.

Cada via era identificada por um número e, por vezes, por um epíteto descritivo. A Via XX, dita per loca maritima — “pelos lugares marítimos” —, acompanhava o litoral galaico, e o facto de as suas distâncias serem dadas em estádios, e não em milhas, denuncia uma matriz de itinerário costeiro.

Técnica e construção

Ao contrário da imagem corrente de uma calçada uniforme, a maioria das vias hispânicas tinha pavimento de terra batida ou de saibro, reservando-se a pavimentação em pedra para troços urbanos, encostas e travessias difíceis.

A imagem da estrada romana de várias camadas sobrepostas — statumen, rudus, nucleus e a superfície de lajes — descreve sobretudo os grandes eixos urbanos. Em meio rural e montanhoso, a solução mais comum era uma plataforma de saibro e cascalho compactados, delimitada por lancis, com lajeado reservado a pontos críticos: encostas íngremes, passagens húmidas ou aproximações a pontes.

A construção adaptava-se ao terreno. Sondagens em troços como o da Via XVIII revelaram estratos variáveis — areias, seixos de rio e saibro mais grosseiro — assentes muitas vezes diretamente sobre a rocha-mãe, sem as valas de drenagem e a estratigrafia rígida descritas para a Itália. Esta plasticidade explica por que tantos segmentos se confundem hoje com caminhos medievais: a via romana era, antes de mais, uma solução prática para mover pessoas e mercadorias ao longo de centenas de quilómetros.

Miliários e pontes

Os miliários são o testemunho mais seguro da rede. Eram colunas de pedra, frequentemente com cerca de dois metros, que marcavam as milhas e ostentavam inscrições com o nome do imperador, distâncias e referências a obras de reparação. A sua leitura epigráfica permite datar fases de construção e de restauro e associar troços a imperadores concretos. Em Portugal, concentram-se sobretudo a norte do Douro.

Indissociáveis das vias estão as pontes romanas, que asseguravam a travessia de rios e ribeiras e muitas das quais continuaram em uso durante séculos — como a notável ponte romana de Chaves, sobre o Tâmega, na antiga Aquae Flaviae. O traçado viário estruturou também o povoamento: estações como Bobadela ou os grandes centros urbanos estudados pela arqueologia romana de Portugal devem boa parte da sua importância à posição nestes eixos.

A Geira, a via mais bem conservada

O caso mais notável é a Geira, ou Via XVIII, que atravessa o Parque Nacional da Peneda-Gerês e transpõe a serra pela Portela do Homem. Lançada sob Vespasiano e prosseguida por Tito e Domiciano, é uma das estradas romanas mais bem conservadas e mais estudadas do noroeste peninsular, e aquela onde sobreviveu o maior número de marcos: dos 140 miliários inventariados no troço português, 102 permanecem in situ. O troço português foi classificado como Monumento Nacional em 2013.

Outros troços de calçada, miliários reaproveitados e pavimentos dispersos pelo Norte, Centro e Alentejo testemunham a densidade desta rede, que integra o vasto conjunto das tipologias do património edificado e do Portugal romano e pré-romano.

Um legado que persiste

A rede viária moldou de forma duradoura a geografia de Portugal. Numerosos caminhos medievais, vias de peregrinação e até estradas modernas seguem traçados herdados de Roma, e o estudo dos seus vestígios — inseparável da arquitetura romana em Portugal — continua a fornecer dados decisivos sobre a economia, a administração e a circulação na Antiguidade.

Reconhecer um talude regular, um lancil de granito ou um marco anepígrafo na paisagem é, muitas vezes, a chave para devolver visibilidade a uma infraestrutura que estruturou o território durante quase dois milénios. Cada miliário recuperado, cada troço de calçada identificado, é uma peça que permite reconstituir o desenho de um império à escala da paisagem.

Perguntas frequentes

Quantas vias romanas atravessavam o atual território português?
Das cerca de 34 vias que o Itinerário de Antonino regista para a Hispânia, aproximadamente onze cruzavam o território que hoje corresponde a Portugal, ligando centros como Olisipo (Lisboa), Bracara Augusta (Braga), Emerita Augusta (Mérida) e Ossonoba (Faro).
Qual é a via romana mais bem conservada em Portugal?
A Geira, ou Via XVIII (Via Nova), entre Bracara Augusta e Asturica Augusta (Astorga), que atravessa o Gerês pela Portela do Homem. É uma das estradas romanas mais bem conservadas do noroeste peninsular: dos 140 miliários inventariados no troço português, 102 permanecem no local. É Monumento Nacional desde 2013.
O que eram os miliários?
Colunas de pedra colocadas ao longo das vias, em geral a cada milha romana (cerca de 1480 m), que indicavam distâncias e registavam muitas vezes o imperador responsável pela construção ou reparação da estrada. Por serem inscritos e indiscutivelmente romanos, são a prova mais segura do traçado das antigas estradas.
As vias romanas eram todas calçadas em pedra?
Não. Nos grandes eixos urbanos usava-se a estrutura de várias camadas com lajeado, mas em meio rural a solução mais comum era uma plataforma de saibro e cascalho compactados, reservando-se a pedra para encostas, zonas húmidas e aproximações a pontes.

Fontes

  1. Estrada romana — Wikipédia
  2. Itinerários das Vias Romanas em Portugal
  3. Via XVIII / Geira — Câmara Municipal de Terras de Bouro
  4. Rede Viária — Museu D. Diogo de Sousa