Arqueologia

Vias romanas

As vias romanas no território português: a rede viária da Lusitânia e da Gallaecia, os miliários, as pontes e o Itinerário de Antonino.

Vias romanas
Francesco Bini, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

A rede viária romana foi um dos instrumentos mais duradouros da integração do ocidente da Península Ibérica no Império. Construída entre os finais do século I a.C. e o século III, articulava a província da Lusitânia e o sul da Gallaecia, ligando os principais núcleos urbanos — Olisipo (Lisboa), Ebora (Évora), Scallabis (Santarém), Conimbriga, Bracara Augusta (Braga), Aquae Flaviae (Chaves) — a portos, minas e à capital provincial, Emerita Augusta (Mérida). Mais do que simples caminhos, as vias eram obras de engenharia ao serviço da administração, do exército e do comércio.

Uma rede ao serviço do Estado

O conhecimento que hoje temos da malha viária assenta sobretudo no Itinerário de Antonino, um registo dos percursos imperiais com as respetivas estações (mansiones) e distâncias expressas em milhas romanas (cerca de 1480 metros). Dos 372 itinerários compilados no documento, 34 dizem respeito à Hispânia, e cerca de onze cruzavam o atual território português. Entre os eixos principais contam-se a Via XVI, que unia Olisipo a Emerita Augusta, e o conjunto de vias do noroeste — a Via XVII por Chaves, a Via XVIII ou Via Nova pelo Gerês e a Via XIX por Ponte de Lima — que ligavam Bracara Augusta a Asturica Augusta (Astorga).

Ao contrário da imagem corrente de uma calçada uniforme, a maioria das vias hispânicas tinha pavimento de terra batida ou de saibro, reservando-se a pavimentação em pedra para troços urbanos, encostas e travessias difíceis.

Técnica e materiais

A construção adaptava-se ao terreno. Sondagens em troços como o da Via XVIII revelaram estratos variáveis — areias, seixos de rio e saibro mais grosseiro — assentes muitas vezes diretamente sobre a rocha-mãe, sem as valas de drenagem e a estratigrafia rígida descritas para a Itália. Esta plasticidade explica por que tantos segmentos se confundem hoje com caminhos medievais: a via romana era, antes de mais, uma solução prática para mover pessoas e mercadorias ao longo de centenas de quilómetros.

Miliários e pontes

Os miliários são o testemunho mais seguro da rede. Eram colunas de pedra, frequentemente com cerca de dois metros, que marcavam as milhas e ostentavam inscrições com o nome do imperador, distâncias e referências a obras de reparação. Calcula-se que sobrevivam cerca de quatro centenas em Portugal, concentrados a norte do Douro. A Via Nova ou Geira, que atravessa o Parque Nacional da Peneda-Gerês, reúne mais de uma centena destes marcos ainda no terreno, sendo a via mais bem conservada da Península.

Indissociáveis das vias estão as pontes romanas, muitas das quais continuaram em uso durante séculos — como a notável ponte romana de Chaves, sobre o Tâmega, na antiga Aquae Flaviae. O traçado viário estruturou ainda o povoamento: estações como Bobadela ou os grandes centros urbanos estudados pela arqueologia do Portugal romano devem a sua importância à posição nestes eixos.

Um legado que persiste

A rede viária moldou de forma duradoura a geografia de Portugal. Numerosos caminhos medievais, vias de peregrinação e até estradas modernas seguem traçados herdados de Roma, e o estudo dos seus vestígios — integrado na arquitetura romana em Portugal — continua a fornecer dados decisivos sobre a economia, a administração e a circulação na Antiguidade. Cada miliário recuperado, cada troço de calçada identificado, é uma peça que permite reconstituir o desenho de um império à escala da paisagem.

Perguntas frequentes

Quantas vias romanas atravessavam o atual território português?
O Itinerário de Antonino regista cerca de 34 percursos para a Hispânia, dos quais aproximadamente 11 cruzavam o território que hoje corresponde a Portugal, articulando a Lusitânia e o sul da Gallaecia.
Qual é a via romana mais bem conservada em Portugal?
A Via Nova ou Geira (Via XVIII), entre Braga e Astorga, que atravessa a serra do Gerês pela Portela do Homem, é considerada a mais bem preservada da Península Ibérica, com mais de uma centena de miliários ainda no terreno.
O que são miliários?
São colunas de pedra colocadas ao longo das vias para assinalar distâncias em milhas romanas. Por terem inscrições e origem indiscutivelmente romana, são a prova mais segura do traçado das antigas estradas.

Fontes

  1. Estrada romana — Wikipédia
  2. Itinerários das Vias Romanas em Portugal
  3. Via XVIII / Geira — Câmara Municipal de Terras de Bouro