Arqueologia

Ribeira de Piscos

Núcleo de arte rupestre da Ribeira de Piscos, no Vale do Côa (Foz Côa), célebre pelos cavalos sobrepostos da Rocha 1 e pelo Homem de Piscos.

Ribeira de Piscos
David Perez, CC BY 4.0 — Wikimedia Commons

A Ribeira de Piscos é um dos núcleos mais emblemáticos da arte rupestre paleolítica do Vale do Côa. Desenvolve-se em torno da foz de uma pequena ribeira afluente, na margem esquerda do rio Côa, na freguesia de Muxagata, concelho de Vila Nova de Foz Côa. Aqui foram identificadas 42 rochas gravadas, 27 das quais com representações paleolíticas, o que faz deste sítio um dos conjuntos mais densos e expressivos integrados no património arqueológico do Vale do Côa.

Os cavalos entrelaçados da Rocha 1

A imagem que celebrizou o núcleo encontra-se na base do vale, junto ao leito da ribeira: dois cavalos representados de cabeças sobrepostas, numa composição de notável domínio gráfico. A sobreposição cuidada das cabeças, longe de ser um acaso de gravações acumuladas, parece intencional e confere à cena um carácter narrativo invulgar no panorama da arte rupestre do Côa. É uma das composições mais reproduzidas de toda a arte paleolítica de ar livre, datável de um momento antigo do ciclo gravetto-solutrense, entre cerca de 30 000 e 25 000 anos antes do presente.

A força da Rocha 1 não reside apenas na qualidade do traço, mas na ideia de relação entre dois animais — algo que aproxima a gravura de uma autêntica cena, e não de uma simples justaposição de figuras.

O Homem de Piscos

Se os grandes herbívoros — cavalos, auroques, cabras-monteses e veados — dominam o bestiário do Côa, as figuras humanas são raríssimas. A Ribeira de Piscos guarda uma das exceções: o chamado Homem de Piscos, gravado na Rocha 2 e sobreposto a um auroque executado em técnica estriada. Trata-se de um dos pouquíssimos antropomorfos de cronologia paleolítica conhecidos em Portugal que segue os cânones de representação humana atribuíveis a este período. Estas figuras humanas surgem apenas em rochas gravadas entre cerca de 18 000 e 14 000 anos antes do presente, e mesmo assim de forma excecional — apenas em duas rochas deste núcleo e em duas outras do vizinho sítio do Fariseu.

Técnica, cronologia e enquadramento

As gravuras combinam várias técnicas — picotado, incisão fina e abrasão —, traduzindo uma longa diacronia de execução. A arte do Côa foi produzida ao longo de um vasto arco temporal, entre cerca de 30 000 e 12 000 anos antes do presente, tendo sido posteriormente reocupado o vale em momentos pós-paleolíticos, de que há ecos num painel pintado mais recente. Esta continuidade ajuda a compreender por que razão o conjunto é considerado um santuário ao ar livre.

A Ribeira de Piscos integra o sítio classificado como Património Mundial pela UNESCO em 1998 — os Sítios de Arte Rupestre Pré-Histórica do Vale do Côa, alargado em 2010 a Siega Verde, em Espanha. Faz parte de uma rede de núcleos visitáveis que inclui a Penascosa e a Canada do Inferno, pontos de partida obrigatórios para quem queira compreender o significado da arte paleolítica de ar livre na Península Ibérica, de que o painel isolado de Mazouco, no Douro, constitui um dos primeiros testemunhos reconhecidos.

Perguntas frequentes

O que torna a Ribeira de Piscos um núcleo singular do Vale do Côa?
Reúne dois motivos raríssimos no contexto paleolítico: os dois cavalos de cabeças entrelaçadas da Rocha 1 e o chamado Homem de Piscos, uma das pouquíssimas figuras humanas conhecidas no Côa.
Onde fica e como se visita a Ribeira de Piscos?
Situa-se na freguesia de Muxagata, concelho de Vila Nova de Foz Côa, na margem esquerda da ribeira junto à foz no rio Côa. As visitas fazem-se com guia, mediante marcação prévia, a partir do Museu do Côa.

Fontes

  1. Côa Parque — Ribeira de Piscos
  2. SIPA — Núcleo de Arte Rupestre da Ribeira de Piscos e Quinta dos Poios
  3. UNESCO World Heritage — Prehistoric Rock Art Sites in the Côa Valley and Siega Verde (ref. 866)