Patrimónios Estudos sobre o património cultural português

Património Mundial

Arte Rupestre do Vale do Côa

O Vale do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, guarda o maior conjunto de arte rupestre paleolítica ao ar livre do mundo, Património Mundial da UNESCO desde 1998.

Perguntas frequentes Fontes
Gravuras rupestres paleolíticas do Vale do Côa
Henrique Matos, GFDL 1.2 — Wikimedia Commons
Localização
Vila Nova de Foz Côa, Guarda
Construção
c. 22 000–10 000 a.C.
UNESCO
Património Mundial · desde 1998

No troço final do rio Côa, afluente do Douro, as vertentes de xisto do concelho de Vila Nova de Foz Côa, no distrito da Guarda, guardam o mais vasto conjunto conhecido de arte paleolítica ao ar livre do planeta. Espalhadas por cerca de oitenta sítios e mais de mil rochas gravadas, as figuras do Côa — cavalos, auroques, veados e cabras-monteses — abrem uma janela rara sobre o imaginário das comunidades caçadoras-recoletoras que habitaram o noroeste peninsular há mais de vinte mil anos. A sua descoberta e preservação, no final do século XX, constituem um dos episódios mais marcantes da arqueologia europeia.

Uma descoberta que parou uma barragem

A história moderna do Côa começa no final de 1991, quando o arqueólogo Nelson Rebanda, que acompanhava os trabalhos de construção de uma barragem destinada a submergir o vale, identificou a primeira rocha gravada na Canada do Inferno, na margem esquerda do rio, junto à foz. Pastores e moleiros conheciam há muito aqueles traços, mas faltavam-lhes os meios para os datar. A descoberta só foi tornada pública em novembro de 1994 e, à medida que se revelava a extensão e a antiguidade dos painéis, instalou-se uma intensa controvérsia nacional e internacional, que opunha o aproveitamento hidroelétrico à salvaguarda de um testemunho arqueológico excecional.

A frase «as gravuras não sabem nadar», que circulou durante a polémica de 1995, condensou um princípio que se tornaria fundador: o de que um sítio rupestre só faz sentido conservado no seu contexto, na rocha e na paisagem que lhe deram origem.

Em novembro de 1995 o Governo suspendeu a obra e, em 1996, abandonou definitivamente a barragem e criou o Parque Arqueológico do Vale do Côa para gerir, proteger e dar a conhecer o conjunto. Foi um dos casos mais marcantes da história recente da arqueologia portuguesa, e a história da própria campanha cívica conta-se em pormenor no ensaio sobre a arte rupestre do Côa.

O Paleolítico gravado na pedra

A grande maioria das figuras data do Paleolítico Superior, num arco temporal situado aproximadamente entre 22 000 e 10 000 a.C., abrangendo fases como o Gravetense, o Solutrense e o Magdalenense. As técnicas predominantes são a picotagem, a incisão fina e a abrasão, executadas diretamente sobre os painéis verticais de xisto. Recorrendo à sobreposição de traços e a contornos múltiplos — como no célebre cavalo de duas cabeças da Canada do Inferno —, alguns autores chegaram a sugerir uma intenção de representação do movimento.

O bestiário é dominado por quatro espécies — o cavalo, o auroque (bovídeo selvagem), o veado e a cabra-montês —, o que aproxima o Côa do universo figurativo da arte rupestre paleolítica das grutas franco-cantábricas, com uma diferença essencial: aqui a arte foi gravada à luz do dia, e não no interior de grutas como sucede em Lascaux ou Altamira. Esta condição, durante muito tempo considerada improvável de sobreviver, obriga a uma observação atenta da luz: muitos painéis só revelam plenamente os seus traços ao final da tarde ou sob iluminação rasante.

O Côa foi salvo não por ser belo, mas por ser legível: cada cavalo, auroque ou cabra-montês gravado no xisto é um documento sobre o pensamento dos caçadores-recoletores do fim da última glaciação.

A continuidade da ocupação humana fez do vale um palimpsesto. Sobre as figuras paleolíticas sobrepõem-se gravuras de épocas posteriores — do Neolítico à Idade do Bronze e à Idade do Ferro, e mesmo de períodos históricos —, o que insere o Côa num panorama mais amplo da arte pré-histórica em Portugal.

Monumento Nacional e Património Mundial

O conjunto dos sítios arqueológicos do vale foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 32/97, de 2 de julho de 1997. Em dezembro de 1998 foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO, com a referência 866, ao abrigo dos critérios (i) e (iii) — obra-prima do génio criativo humano e testemunho excecional de uma tradição cultural. Em 2010, a inscrição foi alargada para incluir o sítio espanhol de Siega Verde, junto ao rio Águeda, na província de Salamanca, formando um bem transfronteiriço designado Sítios Pré-Históricos de Arte Rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde, que sublinha a unidade desta tradição artística ao longo dos dois rios.

Visitar o Vale do Côa

O acesso aos painéis faz-se exclusivamente por visita guiada, em pequenos grupos e em viaturas todo-o-terreno, a partir do Museu do Côa, inaugurado em 2010 sobre a foz do rio. Três núcleos estão regularmente abertos ao público:

  • a Canada do Inferno, junto a Vila Nova de Foz Côa, onde tudo começou e onde a paisagem ainda mostra as cicatrizes da barragem interrompida;
  • a Penascosa, em Castelo Melhor, visitável também ao entardecer, quando a luz rasante faz surgir os traços;
  • a Ribeira de Piscos, em Muxagata.

Mais do que um museu de objetos, o Côa é um sítio que se lê na paisagem: as gravuras permanecem nas rochas onde foram feitas, conservadas in situ — uma opção de gestão explicada na página sobre o sítio arqueológico do Vale do Côa. Aí, a arqueologia, o rio e a vinha do Douro entrelaçam-se num dos lugares mais singulares da Europa pré-histórica, num diálogo ininterrupto entre o xisto e a memória das primeiras comunidades que aqui deixaram a sua marca.

Perguntas frequentes

O que torna o Vale do Côa único no mundo?
É o maior conjunto conhecido de arte rupestre paleolítica ao ar livre, com mais de mil rochas gravadas ao longo das margens do rio Côa. Ao contrário da arte das grutas, como Lascaux ou Altamira, as gravuras do Côa foram executadas a céu aberto, em afloramentos de xisto.
Quando foi descoberta a arte rupestre do Vale do Côa?
A primeira rocha gravada, a rocha 1 da Canada do Inferno, foi identificada no final de 1991 pelo arqueólogo Nelson Rebanda, durante o acompanhamento arqueológico da construção de uma barragem no rio Côa. A descoberta só foi tornada pública em novembro de 1994.
O Vale do Côa é Património Mundial da UNESCO?
Sim. Foi inscrito em dezembro de 1998 (referência 866), ao abrigo dos critérios (i) e (iii). Em 2010, a inscrição foi alargada ao sítio espanhol de Siega Verde, passando a designar-se Sítios Pré-Históricos de Arte Rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde.
Que núcleos é possível visitar?
Estão abertos à visita guiada três núcleos principais: a Canada do Inferno, junto a Vila Nova de Foz Côa, a Penascosa, em Castelo Melhor, e a Ribeira de Piscos, em Muxagata. As visitas partem do Museu do Côa, em viaturas todo-o-terreno.

Fontes

  1. UNESCO World Heritage Centre — Prehistoric Rock Art Sites in the Côa Valley and Siega Verde
  2. Fundação Côa Parque — História
  3. Diário da República — Decreto n.º 32/97, de 2 de julho
  4. Património Cultural (DGPC) — Sítios pré-históricos de arte rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde
  5. SIPA — Conjunto dos núcleos de Arte Rupestre do Vale do Côa
  6. Sítios de arte rupestre do Vale do Coa — Wikipédia

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