Períodos & Estilos

Arte Rupestre do Vale do Côa e do Paleolítico

Gravuras rupestres paleolíticas ao ar livre do Vale do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, classificadas pela UNESCO em 1998 como Património Mundial.

Arte Rupestre do Vale do Côa e do Paleolítico
Henrique Matos, GFDL 1.2 — Wikimedia Commons

As gravuras rupestres do Vale do Côa formam o mais vasto conjunto conhecido de arte paleolítica ao ar livre do planeta. Espalhadas pelas vertentes de xisto que ladeiam o rio Côa, afluente do Douro, no concelho de Vila Nova de Foz Côa (distrito da Guarda), estas figuras gravadas na rocha documentam uma tradição artística que atravessou milénios, do Paleolítico Superior até épocas mais recentes. A sua descoberta e preservação, no final do século XX, constituem um dos episódios mais marcantes da arqueologia europeia.

Uma descoberta no limiar da destruição

A presença de gravuras no Côa foi reconhecida em 1992, no decurso dos estudos de impacto ambiental ligados à construção de uma barragem destinada a submergir o vale. À medida que se revelava a extensão e a antiguidade dos painéis, sobretudo no núcleo da Canada do Inferno, instalou-se uma intensa controvérsia nacional e internacional. A questão opunha o aproveitamento hidroelétrico à salvaguarda de um testemunho arqueológico excecional. Em novembro de 1995, o Governo decidiu suspender definitivamente a obra, num gesto que ficou sintetizado na divisa popular «as gravuras não sabem nadar».

O Côa foi salvo não por ser belo, mas por ser legível: cada cavalo, auroque ou cabra-montês gravado no xisto é um documento sobre o pensamento dos caçadores-recoletores do fim da última glaciação.

O Paleolítico gravado na pedra

A grande maioria das figuras data do Paleolítico Superior, num arco temporal situado aproximadamente entre 22 000 e 10 000 a.C., abrangendo fases como o Gravetense, o Solutrense e o Magdalenense. Os animais dominam o repertório: cavalos, auroques (bovídeos selvagens), veados e cabras-monteses, executados por picotagem, incisão fina e abrasão. Trata-se de um capítulo central da arte rupestre paleolítica ibérica, raro pelo facto de estar gravado à luz do dia, e não no interior de grutas como sucede em Lascaux ou Altamira.

A continuidade da ocupação humana fez do vale um palimpsesto: sobre as figuras paleolíticas sobrepõem-se manifestações posteriores, da Idade do Bronze, da Idade do Ferro e mesmo de épocas históricas, o que insere o Côa num panorama mais amplo da arte pré-histórica em Portugal.

Património Mundial e parque arqueológico

Classificado como Monumento Nacional em 1997, o conjunto foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO em 1998, com a referência 866 e ao abrigo dos critérios (i) e (iii). Em 2010, a classificação foi alargada para incluir o sítio espanhol de Siega Verde, na província de Salamanca, formando um bem transfronteiriço que sublinha a unidade desta tradição artística ao longo dos rios Côa e Águeda.

Hoje, a gestão e a interpretação do território cabem ao parque arqueológico e ao museu sediados em Vila Nova de Foz Côa, que organizam visitas a núcleos como a Penascosa, a Ribeira de Piscos e a Canada do Inferno. A experiência completa-se com o conhecimento do Vale do Côa enquanto paisagem cultural, onde a arqueologia, o rio e a vinha do Douro se entrelaçam num dos lugares mais singulares da Europa pré-histórica.

Perguntas frequentes

Quando foi descoberta a arte rupestre do Vale do Côa?
As gravuras foram identificadas em 1992 durante os estudos arqueológicos associados à construção de uma barragem no rio Côa, tendo a sua importância sido reconhecida em 1994-1995.
Porque é que o Vale do Côa é tão importante?
Constitui o maior conjunto conhecido de arte rupestre paleolítica ao ar livre, com milhares de figuras gravadas em xisto ao longo de mais de vinte mil anos.
O Vale do Côa é Património Mundial da UNESCO?
Sim. Foi inscrito em 1998 (referência 866) e, em 2010, a classificação foi alargada para incluir o sítio espanhol de Siega Verde.

Fontes

  1. UNESCO — Prehistoric Rock Art Sites in the Côa Valley and Siega Verde
  2. Sítios de arte rupestre do Vale do Coa — Wikipédia
  3. Património Cultural (DGPC) — Sítios pré-históricos de arte rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde