Arqueologia

Vale do Côa (sítio arqueológico)

O Vale do Côa, em Vila Nova de Foz Côa, reúne o maior conjunto de arte rupestre paleolítica ao ar livre do mundo, classificado pela UNESCO.

Vale do Côa (sítio arqueológico)
Henrique Matos, GFDL 1.2 — Wikimedia Commons

No troço final do rio Côa, antes de este desaguar no Douro, as margens de xisto guardam o maior conjunto de arte rupestre paleolítica ao ar livre conhecido no mundo. Espalhadas por mais de oitenta sítios e cerca de mil e duzentas rochas gravadas, as figuras do Côa — cavalos, auroques, veados e cabras-monteses — abrem uma janela rara sobre o imaginário das comunidades caçadoras-recoletoras que habitaram o noroeste peninsular há mais de vinte mil anos.

Uma descoberta que parou uma barragem

A história moderna do Côa começa em 1994, quando os trabalhos de prospeção arqueológica ligados à construção de uma barragem no rio revelaram, na Canada do Inferno, gravuras inequivocamente paleolíticas. O confronto entre o aproveitamento hidroelétrico e a preservação do património resultou num dos casos mais marcantes da história recente da arqueologia portuguesa: em 1995 o Governo suspendeu a obra e, no ano seguinte, criou o Parque Arqueológico do Vale do Côa para gerir, proteger e dar a conhecer o conjunto.

A frase “as gravuras não sabem nadar”, que circulou durante a polémica de 1995, condensou um princípio que se tornaria fundador: o de que um sítio rupestre só faz sentido conservado no seu contexto, na rocha e na paisagem que lhe deram origem.

Em 1998 o conjunto foi classificado como Monumento Nacional e inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO, com base nos critérios de obra-prima do génio criativo humano e de testemunho excecional de uma tradição cultural. Em 2010, a inscrição foi alargada para incluir o sítio espanhol de Siega Verde, no rio Águeda, passando a designar-se Sítios Pré-Históricos de Arte Rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde.

A arte gravada na rocha

A grande maioria das figuras data do Paleolítico Superior, num arco temporal aproximado entre 22 000 e 10 000 a.C., embora existam também gravuras de épocas posteriores — do Neolítico à Idade do Ferro e mesmo de períodos históricos. As técnicas predominantes são a picotagem, a incisão e a abrasão, executadas diretamente sobre os painéis verticais de xisto. Recorrendo à sobreposição de traços e a contornos múltiplos, alguns autores chegaram a sugerir uma intenção de representação do movimento.

O bestiário é dominado por quatro espécies — o cavalo, o auroque, o veado e a cabra-montês —, o que aproxima o Côa do universo figurativo da arte rupestre paleolítica das grutas franco-cantábricas, com a diferença essencial de ser arte ao ar livre. Esta condição, durante muito tempo considerada improvável de sobreviver, obriga a uma observação atenta da luz: muitos painéis só revelam plenamente os seus traços ao final da tarde ou sob iluminação rasante.

Visitar o Vale do Côa

O acesso aos painéis faz-se exclusivamente por visita guiada, em pequenos grupos e em veículos todo-o-terreno, a partir do Museu do Côa, inaugurado em 2010 sobre a foz do rio. Três núcleos estão regularmente abertos ao público: a Canada do Inferno e a Penascosa, em Castelo Melhor, esta última visitável também ao entardecer, e a Ribeira de Piscos, em Muxagata. Para um enquadramento mais amplo das figuras, dos sítios e do significado deste território, ver a página dedicada à arte rupestre do Côa e a do município de Vila Nova de Foz Côa.

Mais do que um museu de objetos, o Vale do Côa é um sítio que se lê na paisagem: as gravuras permanecem nas rochas onde foram feitas, num diálogo ininterrupto entre o rio, o xisto e a memória das primeiras comunidades que aqui deixaram a sua marca.

Perguntas frequentes

O que torna o Vale do Côa único no mundo?
É o maior conjunto conhecido de arte rupestre paleolítica ao ar livre, com mais de mil rochas gravadas distribuídas ao longo das margens do rio Côa. Ao contrário da arte parietal das grutas, as gravuras do Côa foram executadas a céu aberto, em afloramentos de xisto.
Quando foram descobertas as gravuras do Côa?
As primeiras gravuras foram identificadas em 1994, durante os trabalhos arqueológicos associados ao projeto de construção de uma barragem no rio Côa. A descoberta levou ao abandono da barragem e à criação do Parque Arqueológico do Vale do Côa em 1996.
Que núcleos é possível visitar?
Estão abertos à visita guiada três núcleos principais: a Canada do Inferno, junto a Vila Nova de Foz Côa, a Penascosa, em Castelo Melhor, e a Ribeira de Piscos, em Muxagata. O Museu do Côa serve de porta de entrada ao conjunto.

Fontes

  1. UNESCO World Heritage Centre — Prehistoric Rock Art Sites in the Côa Valley and Siega Verde
  2. DGPC — Sítios Pré-históricos de Arte Rupestre do Vale do Rio Côa e de Siega Verde
  3. SIPA — Conjunto dos núcleos de Arte Rupestre do Vale do Côa