Arqueologia
Bobadela: Cidade Romana de Oliveira do Hospital
As ruínas romanas da Bobadela, em Oliveira do Hospital: anfiteatro, arco monumental do fórum e epigrafia de uma splendidissima civitas da Beira.
No coração da Beira Serra, num planalto granítico a meio caminho entre a Serra da Estrela e o vale do Mondego, a aldeia de Bobadela guarda um dos conjuntos arqueológicos romanos mais notáveis e mais bem conservados de Portugal. Sob o casario atual repousa uma cidade antiga cujo nome se perdeu, mas cuja monumentalidade ainda se lê nas pedras: um arco solene, um anfiteatro de planta elíptica e um punhado de inscrições que evocam uma comunidade próspera e organizada.
Uma cidade sem nome
A Bobadela romana terá nascido no século I d.C., provavelmente associada ao reordenamento territorial augustano e à rede viária que ligava Emerita Augusta (Mérida) a Bracara Augusta (Braga). As escavações revelaram um traçado urbano com fórum, edifícios públicos e espaços de espetáculo, sinais de um aglomerado com estatuto e ambições. As inscrições falam de uma splendidissima civitas — a “esplendidíssima cidade” — e mencionam figuras como Júlia Modesta, mas, paradoxalmente, nenhuma delas regista o topónimo antigo. Apesar de mais de um século de estudo, o nome romano de Bobadela continua por identificar, o que faz dela uma das maiores incógnitas da arqueologia romana em Portugal.
Poucos sítios reúnem tanta monumentalidade e tão pouca certeza: Bobadela é uma cidade que se afirma “esplendidíssima” nas suas pedras, mas que se recusa a dizer como se chamava.
O arco do fórum e o anfiteatro
A peça mais célebre do conjunto é o arco monumental, que correspondia ao acesso oriental do fórum. Erguido com grandes silhares de granito em aparelho almofadado e assente sem qualquer argamassa, sobrevive ainda hoje com a sua volta perfeita, exibindo nos blocos os orifícios de forfex — as pinças metálicas usadas para içar a pedra durante a construção. Esta engenharia “a seco”, apoiada apenas no rigor do talhe, explica em boa parte a longevidade do monumento.
A poucos passos ergue-se o anfiteatro, com uma arena elíptica de cerca de 50 por 40 metros, delimitada por um muro de podium. Orientado de norte para sul e parcialmente escavado na rocha, terá sido construído no último quartel do século I d.C. e usado, para jogos e combates, até finais do século IV. É hoje reconhecido como o anfiteatro romano mais bem preservado do país — um caso raro, num território onde estes recintos de espetáculo eram pouco frequentes fora dos grandes centros como Conímbriga.
Epigrafia e classificação
A epigrafia é um dos maiores tesouros de Bobadela. Além das aras e dedicatórias que aludem à civitas e a Júlia Modesta, conserva-se uma inscrição consagrada a Neptuno, possivelmente ligada a um monumento ou culto associado à água. Este acervo torna o sítio um campo de referência para o estudo da epigrafia romana e da organização das comunidades do interior beirão, frequentemente discutido no contexto mais amplo do Portugal romano.
O reconhecimento oficial chegou cedo: o arco foi classificado como Monumento Nacional em 1910 e, em 1936, a proteção alargou-se ao conjunto, então rebatizado como Ruínas Romanas de Bobadela. Mais recentemente, decorreram processos de ampliação da área classificada, integrando o anfiteatro e o entorno arqueológico, num esforço de valorização que mantém Bobadela como destino de referência para quem procura entender a presença romana na Beira interior.
Perguntas frequentes
- Onde fica a cidade romana da Bobadela?
- Na freguesia de Bobadela, concelho de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra, na Beira Serra, entre a Serra da Estrela e o vale do Mondego.
- Qual era o nome romano da Bobadela?
- Desconhece-se. As inscrições referem uma splendidissima civitas, mas nenhuma revela o topónimo antigo do aglomerado.
- O anfiteatro da Bobadela pode visitar-se?
- Sim. É considerado o anfiteatro romano mais bem preservado de Portugal e integra o conjunto classificado das ruínas, de acesso livre.