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Vitral em Portugal

História do vitral em Portugal: do conjunto medieval do Mosteiro da Batalha, o mais antigo do país, aos cartões modernos de Almada Negreiros e Lino António.

Vitral em Portugal
Wilfredor, CC0 — Wikimedia Commons

O vitral — composição de vidros coloridos unidos por hastes de chumbo e fixados nas grandes aberturas da arquitetura — chegou a Portugal na esteira da expansão do gótico europeu. Mais do que um simples fecho das janelas, foi concebido como uma “parede translúcida”, em que a luz filtrada pela cor traduzia, no plano simbólico, a comunhão entre o divino e o humano. Importados da Alemanha, de França, de Inglaterra e da Flandres, os modelos, as técnicas e os próprios mestres vidreiros fixaram-se lentamente no território, dando origem a uma tradição que, embora descontínua, atravessa seis séculos.

O núcleo medieval da Batalha

O acervo fundador desta arte em Portugal encontra-se no Mosteiro da Batalha, erguido por D. João I em cumprimento do voto feito antes da Batalha de Aljubarrota (1385). Os vitrais da sua capela-mor e da Sala do Capítulo, executados a partir da primeira metade do século XV, são os mais antigos que se conservam no país e o testemunho mais completo da oficina régia que aqui funcionou. Em torno do estaleiro do mosteiro formou-se uma verdadeira escola, ativa por mais de duas centúrias: nela se documentam os vitralistas do período, que daqui partiam para satisfazer encomendas do rei e dos grandes senhores.

Os temas inscrevem-se no universo bíblico e hagiográfico — cenas da vida de Cristo, figuras de santos —, a que se juntam os emblemas heráldicos das casas reais e os motivos geométricos e fitomórficos. Um dos painéis da capela-mor, datado de 1508, desenvolve um programa da Paixão que ilustra a transição do gosto gótico tardio para a sensibilidade manuelina.

A raridade dos conjuntos quinhentistas explica-se por uma fragilidade material: o vitral é, de todas as artes monumentais, a mais exposta à intempérie, às guerras e ao terramoto de 1755, que destruiu boa parte do património vidreiro de Lisboa.

Coleção, romantismo e renascimento oitocentista

Após um longo eclipse, o vitral reentrou no gosto português pela via do romantismo. D. Fernando II, rei-artista, reuniu uma notável coleção de vitrais antigos, integrando-os na decoração do Palácio Nacional da Pena, em Sintra — peças mais tarde transferidas para o Palácio Nacional da Ajuda. Este colecionismo régio antecipou, na segunda metade do século XIX, a reabilitação da arte vidreira, que então acompanhava a moda historicista e dialogava com o ressurgimento das artes decorativas portuguesas.

O vitral moderno e a oficina de Ricardo Leone

A verdadeira revitalização da arte chegou no início do século XX. A oficina fundada por Cláudio Azambuja em 1905, e adquirida em 1920 por Ricardo Leone após a morte do mestre, tornou-se o principal centro de produção do país. Nas décadas de 1930 e 1940 — os seus anos mais prósperos —, a Oficina de Vitrais e Mosaicos de Arte traduziu para vidro os cartões de pintores de primeira linha, como Almada Negreiros e Abel Manta.

O exemplo maior é a Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, em Lisboa, consagrada em 1938 e primeira igreja do Movimento Moderno em Portugal. Aí, Almada Negreiros assinou os vitrais e os mosaicos do batistério, enquanto Lino António executou os frescos do arco triunfal — uma síntese das artes que fez do edifício um manifesto do modernismo nacional. Pela mesma altura, o vocabulário decorativo da Arte Nova deixou ainda a sua marca em vitrais civis de fachadas, escadarias e estabelecimentos comerciais.

Hoje, a conservação deste património concentra-se na oficina de restauro do Mosteiro da Batalha, que mantém viva uma das técnicas artísticas mais especializadas e frágeis do legado cultural português.

Perguntas frequentes

Onde estão os vitrais mais antigos de Portugal?
No Mosteiro da Batalha, cujos vitrais da capela-mor e da Sala do Capítulo remontam à primeira metade do século XV e constituem o núcleo medieval mais importante do país.
Que pintores modernistas desenharam vitrais em Portugal?
Almada Negreiros, autor dos vitrais da Igreja de Nossa Senhora de Fátima em Lisboa, e Lino António, que executou vitrais para edifícios públicos, ambos colaborando com oficinas especializadas como a de Ricardo Leone.

Fontes

  1. Vitral - Wikipédia
  2. Mosteiro da Batalha - Vitrais (DGPC)
  3. Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Fátima - Wikipédia