Arqueologia
Arqueologia islâmica e medieval
A arqueologia do Gharb al-Andalus e do período islâmico e medieval em Portugal, de Mértola a Silves: cerâmica, casas e a cidade muçulmana do ocidente.
Entre a conquista muçulmana de 711 e a tomada do Algarve por D. Afonso III, fixada em 1249, o atual território português integrou o Gharb al-Andalus, a fronteira ocidental de al-Andalus. Durante cerca de cinco séculos formou-se aqui uma sociedade urbana, rural e religiosamente plural, cuja arqueologia só começou a ser lida com método na segunda metade do século XX. Estudar o período islâmico e medieval é, em larga medida, reconstituir o quotidiano de cidades que continuam habitadas e onde os vestígios se escondem sob os bairros atuais.
O Gharb al-Andalus
O Gharb era a parte mais ocidental do Andaluz, organizada em torno de cinco grandes territórios — a região de Coimbra, o estuário do Tejo, o Alto e o Baixo Alentejo e o Algarve — que se prolongavam pela Estremadura e Andaluzia ocidentais espanholas. As suas principais cidades — Coimbra, Lisboa, Santarém, Silves, Mértola e Faro — eram nós de uma rede mediterrânica de comércio, fiscalidade e cultura. A província resistiu de forma recorrente à centralização cordovesa e, por volta de 1110, chegou a dividir-se em três circunscrições. Silves, a Xelb dos textos árabes, foi capital de taifa e ficou na memória como “Bagdade do Ocidente”, terra dos poetas al-Mu’tamid e Ibn ‘Ammar.
A arqueologia islâmica portuguesa nasceu menos das ruínas isoladas e mais das cidades vivas: foi a escavação urbana, casa a casa, que devolveu rosto a uma sociedade que os textos cristãos da Reconquista tinham reduzido a inimigo.
A cerâmica e a casa islâmica
Até aos anos 1980, a investigação sobre o período era escassa. A viragem deu-se com os projetos de Mértola e de Silves, que tornaram a cerâmica o principal instrumento de datação e de leitura social. As louças vidradas, os tipos de cozinha e de mesa e as suas técnicas decorativas permitiram seriar contextos entre os séculos IX e XIII e cartografar circuitos de produção e troca por todo o Gharb. A partir de 2008, projetos como o CIGA — dedicado à cerâmica islâmica do Ġarb al-Andalus — vieram sistematizar este corpus.
A escavação urbana revelou também uma tipologia de casa de matriz mediterrânica, organizada em torno de um pátio, com cada compartimento a cumprir uma função definida. As paredes exteriores assentavam num embasamento de pedra e erguiam-se em taipa, com cerca de meio metro de espessura, enquanto finos tabiques de adobe separavam os espaços interiores. O bairro almóada da alcáçova de Mértola, dos séculos XII–XIII, é o conjunto mais bem conhecido e oferece o retrato mais completo do habitar no sul peninsular no fim do domínio islâmico.
Da Reconquista ao palimpsesto medieval
A arqueologia medieval não se esgota no mundo islâmico. A mesma estratigrafia documenta a longa transição entre o período romano e tardo-antigo — visível em sítios como Idanha-a-Velha, a antiga Egitânia — e a reorganização cristã que se segue à Reconquista, com novas paróquias, castelos e malhas urbanas sobrepostas às anteriores. O estudo dos materiais, das muralhas e dos cemitérios mostra que nenhuma camada apagou inteiramente a precedente.
Compreender este período exige cruzar a evidência material com a arte islâmica em Portugal e enquadrá-lo no percurso mais amplo da arqueologia portuguesa, em que o tempo medieval surge como um palimpsesto denso, ainda longe de esgotado pela escavação.
Perguntas frequentes
- O que era o Gharb al-Andalus?
- Era a parte mais ocidental de al-Andalus, o território peninsular sob domínio muçulmano. Correspondia grosso modo ao atual sul e centro de Portugal, com cidades como Coimbra, Lisboa, Santarém, Silves, Mértola e Faro, e prolongava-se pela Estremadura e Andaluzia ocidentais espanholas.
- Quanto tempo durou a presença islâmica em território português?
- Cerca de cinco séculos. Começou com a conquista de 711 e terminou progressivamente com a Reconquista, concluída no atual território português com a tomada do Algarve por D. Afonso III, fixada em 1249.
- Quais são os sítios mais importantes para a arqueologia islâmica em Portugal?
- Mértola e Silves foram os primeiros a fornecer informação sólida e contínua sobre a vida islâmica no sul, sobretudo através da escavação urbana e do estudo da cerâmica. A eles juntam-se Lisboa, Santarém, Faro e dezenas de castelos e ribats.