Arqueologia
Mértola arqueológica
Mértola arqueológica: a vila-museu do Baixo Alentejo e o Campo Arqueológico, referência da arqueologia islâmica e tardo-antiga em Portugal.
Encavalitada sobre um esporão rochoso na confluência do Guadiana com a ribeira de Oeiras, Mértola é, em Portugal, o exemplo mais completo de uma vila onde a estratigrafia do tempo permanece legível à superfície. Fenícios, romanos, bizantinos, suevos, muçulmanos e cristãos sucederam-se no mesmo promontório sem nunca o abandonarem, fazendo deste lugar do Baixo Alentejo um laboratório raro para o estudo da longa duração mediterrânica. A vila inteira funciona hoje como sítio arqueológico, museu e centro de investigação.
Da Myrtilis romana à Martula islâmica
A posição de Mértola explica a sua história: era o ponto mais a montante navegável do Guadiana, cabeça de uma rota fluvial que ligava o interior mineiro do Alentejo e da faixa piritosa ao Mediterrâneo. Os romanos fizeram dela Myrtilis Iulia, município que escoava cobre e prata pelo rio e cunhou moeda própria. Desse período sobrevivem o criptopórtico, troços de muralha e uma rica epigrafia, em diálogo com o panorama mais vasto do Portugal romano e da sua arqueologia.
Na Antiguidade Tardia, Mértola foi sede de bispado e ostentou uma notável basílica paleocristã, cujo conjunto de inscrições funerárias - o Rossio do Carmo - constitui um dos maiores núcleos epigráficos cristãos da Península. Conquistada pelos muçulmanos em 713, tornou-se Martula, próspera cidade-porto que chegou a ser capital de uma efémera taifa em meados do século XI. O bairro da alcáçova, escavado junto ao castelo, e os abundantes conjuntos cerâmicos al-andalusinos fazem de Mértola um caso de estudo central para a arqueologia islâmica em território português.
O Campo Arqueológico e o modelo vila-museu
A Mértola contemporânea como referência arqueológica nasce em 1978, quando o arqueólogo Cláudio Torres, a convite da autarquia saída do 25 de Abril, iniciou trabalhos sistemáticos que se formalizariam, em 1988, na associação Campo Arqueológico de Mértola. Mais do que escavar, o projeto propôs-se travar o despovoamento de uma vila raiana em declínio, ligando investigação científica, formação, criação de emprego e identidade local.
A escavação não é um fim em si: em Mértola, conhecer o passado tornou-se um instrumento deliberado de desenvolvimento de um território interior fragilizado.
Desta filosofia resultou o modelo de vila-museu, em que o acervo se distribui por vários núcleos espalhados pelo casario - arte islâmica, basílica paleocristã, casa romana, arte sacra, tecelagem, forja - articulados com os monumentos visitáveis, entre os quais o castelo de Mértola e a igreja matriz, antiga mesquita ainda reconhecível na planta e no mihrab. O percurso pela vila de Mértola é, assim, simultaneamente urbano e museológico.
Reconhecimento e candidatura a Património Mundial
O trabalho continuado do Campo Arqueológico granjeou reconhecimento nacional e internacional, incluindo o prémio Europa Nostra. Em 2016, Mértola foi inscrita na Lista Indicativa portuguesa ao Património Mundial da UNESCO, com base no valor excecional do seu conjunto urbano e na continuidade da ocupação ao longo de quase três milénios. A candidatura sublinha não só a riqueza dos vestígios materiais, mas também o caráter pioneiro do próprio projeto de salvaguarda, hoje estudado como referência da arqueologia portuguesa enquanto prática socialmente comprometida.
Perguntas frequentes
- O que é a vila-museu de Mértola?
- É um modelo museológico que transforma a própria vila num percurso patrimonial, articulando vários núcleos temáticos - castelo, basílica paleocristã, arte islâmica, casa romana, entre outros - com os sítios arqueológicos in situ.
- Quando foi criado o Campo Arqueológico de Mértola?
- Os trabalhos arqueológicos sistemáticos foram iniciados em 1978 por Cláudio Torres; a associação Campo Arqueológico de Mértola foi formalmente constituída em 1988.
- Porque é Mértola importante para a arqueologia islâmica?
- Os bairros da alcáçova e o espólio cerâmico al-andalusino fazem de Mértola uma das principais referências europeias para o estudo do período islâmico e da transição entre a Antiguidade Tardia e a Idade Média.