Património Imaterial

Bombos e Zés Pereiras

Os grupos de bombos e Zés Pereiras do Entre-Douro-e-Minho: percussão, gaita-de-foles e o som que anuncia romarias e festas populares do Norte de Portugal.

Bombos e Zés Pereiras
PONTE...NAS ONDAS!, CC BY 2.0 — Wikimedia Commons

Poucos sons identificam tão imediatamente uma festa popular do Norte de Portugal como o ribombar dos bombos. Vibrante, marcial e hipnótico, anuncia ao longe que se aproxima a romaria, marca o passo das procissões e dá ritmo aos arraiais. Os conjuntos que o produzem são conhecidos, em boa parte do Entre-Douro-e-Minho, por Zés Pereiras — grupos de percussionistas, tradicionalmente homens, que desfilam em parada tocando bombos e caixas, frequentemente acompanhados pela gaita-de-foles.

O conjunto e os seus instrumentos

A base sonora assenta na percussão: o bombo, grande tambor de duas peles tocado com baqueta forrada, a caixa de rufo e os timbalões. Sobre esta pulsação enxertam-se aerofones melódicos — a gaita-de-foles (de modelo galego ou nele inspirado) e os pífaros. Mais recentemente, a concertina, instrumento de enorme expressão na música popular minhota, foi sendo integrada nestes conjuntos, aproximando-os de outras manifestações da música popular do Minho e do uso da concertina.

O reportório não é, na sua essência, melódico mas rítmico: cabe ao bombo conduzir, com toques codificados que sinalizam a chegada, a passagem do andor ou o momento do foguetório. Os grupos podem actuar isolados ou enquadrar gigantones e cabeçudos, figuras de cartão de grande dimensão que acompanham os cortejos.

O essencial dos Zés Pereiras não está numa partitura, mas numa função: avisar, convocar e congregar. O bombo é, antes de tudo, um instrumento de comunicação comunitária.

Função nas romarias e festas

Os grupos de bombos cumprem um papel cerimonial e social que vai muito além do divertimento. Marcam os ritos de passagem e os rituais religiosos do noroeste português, abrindo procissões, escoltando andores e dando sinal aos restantes momentos da festa. A sua presença é quase obrigatória nas grandes romarias do Minho, como a Romaria de Nossa Senhora da Agonia, em Viana do Castelo, e está disseminada por inúmeras festas paroquiais de toda a região Norte. É uma manifestação eminentemente local: cada freguesia tem, ou já teve, o seu grupo, muitas vezes com longa continuidade — alguns conjuntos contam várias décadas de actividade ininterrupta.

Nome, origem e difusão

A designação “Zé Pereira” é objecto de debate. A versão mais divulgada atribui-a ao sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes que, no Carnaval do Rio de Janeiro de 1846, terá saído à rua com um bombo à frente de um grupo de foliões — passando o seu nome a “Zé Pereira” no calor da folia. Vários autores consideram, contudo, que esta narrativa funciona sobretudo como mito fundador: a existência de um folguedo carnavalesco chamado Zé Pereira no Portugal de Oitocentos aponta para uma forte raiz peninsular anterior, levada para o Brasil pela emigração portuguesa, onde fez carreira própria no carnaval carioca.

Em Portugal, a tradição manteve-se vigorosa enquanto prática viva e funcional, ligada ao calendário festivo e religioso. Integra hoje o universo do património cultural imaterial português, tendo sido objecto de estudo etnomusicológico aprofundado, com levantamentos junto de tocadores, festeiros e dos artesãos que constroem bombos e gaitas. Esses construtores são, de resto, parte indissociável da tradição: sem a transmissão do saber de fazer e afinar os instrumentos, e sem as escolas informais onde os mais novos aprendem a tocar, o som que anuncia a festa não chegaria à geração seguinte.

Perguntas frequentes

O que é um grupo de Zés Pereiras?
É um conjunto de tocadores de bombos e caixas, por vezes acompanhados de gaita-de-foles, que desfila em parada animando romarias, procissões e festas populares, sobretudo no Entre-Douro-e-Minho.
Que instrumentos compõem um grupo de bombos?
Tipicamente bombos (grandes tambores de baqueta), caixas de rufo e timbalões. A componente melódica pode incluir gaita-de-foles, pífaros e, mais recentemente, a concertina, muito popular no Minho.
De onde vem o nome 'Zé Pereira'?
A origem é debatida. Uma versão popular liga-o ao sapateiro português José Nogueira de Azevedo Paredes, no Carnaval do Rio de Janeiro de 1846, mas o folguedo do Zé Pereira já existia em Portugal, apontando para raízes peninsulares anteriores.

Fontes

  1. Zé Pereira — Wikipédia
  2. Os Zés Pereiras: uma cultura musical do Entre-Douro-e-Minho — Tradisom