Arqueologia
O Calcolítico em Portugal
O Calcolítico em Portugal: povoados fortificados, metalurgia do cobre e cerâmica campaniforme no terceiro milénio a.C., de Leceia a Zambujal e Perdigões.
O Calcolítico — literalmente “idade da pedra e do cobre” — designa o período pré-histórico de transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze. Em Portugal, desenrola-se sobretudo ao longo do terceiro milénio a.C. (grosso modo entre cerca de 3000 e 2000 a.C.), num momento em que as comunidades agro-pastoris da Península Ibérica intensificam a produção, hierarquizam o território e adotam, pela primeira vez de forma sistemática, a metalurgia do cobre. Não se trata de uma rutura brusca com o mundo neolítico, mas de uma aceleração de processos já em curso: maior densidade populacional, especialização do trabalho e redes de troca de longa distância que ligam o litoral atlântico ao Mediterrâneo.
Povoados fortificados e organização do território
A imagem mais característica do Calcolítico português é a do povoado fortificado, implantado em pontos altos e defendido por linhas de muralhas com torres e bastiões de planta redonda. Na Estremadura, o Castro do Zambujal, em Torres Vedras, é um dos maiores e mais bem estudados da Península, com várias fases construtivas erguidas ao longo de mais de um milénio. A sul de Lisboa, o povoado de Leceia, em Oeiras, conserva três linhas de muralhas calcárias edificadas no início do terceiro milénio, enquanto Vila Nova de São Pedro, em Azambuja, deu nome a toda uma fácies cultural e ficou célebre pelos milhares de pontas de seta aí recolhidas.
No interior alentejano, a lógica é diferente: em vez de muralhas de pedra, encontram-se imensos recintos delimitados por fossos escavados no substrato, de que os Perdigões, em Reguengos de Monsaraz, são o exemplo mais espetacular. Estes espaços articulavam funções domésticas, funerárias e cerimoniais, mostrando que a monumentalidade calcolítica não se reduzia à defesa.
A metalurgia do cobre
A novidade técnica que dá nome ao período é o trabalho do cobre. Dentro dos povoados surgem áreas reservadas à atividade metalúrgica, com cadinhos, escórias e moldes, a par de vestígios de fiação, tecelagem e produção de laticínios. Os objetos de cobre — punhais, machados, escopros, pontas de tipo Palmela — são ainda raros e de elevado valor, circulando como bens de prestígio. A sua produção exigia o controlo de fontes de minério e de saberes especializados, o que reforçou as assimetrias sociais já visíveis na arquitetura e nos espólios funerários.
A adoção do cobre não substituiu a pedra: o sílex e a pedra polida continuaram a fornecer o utensílio quotidiano. Foi sobretudo no plano simbólico e social que o novo metal pesou, como marcador de estatuto.
O fenómeno campaniforme
Nos finais do Calcolítico difunde-se a cerâmica campaniforme, vasos em forma de sino decorados com bandas incisas ou impressas que se encontram por grande parte da Europa ocidental. O estuário do Tejo é uma das regiões onde surgem exemplares marítimos antigos, datados de cerca do século XXVIII a.C., o que coloca o atual território português entre os focos relevantes deste horizonte. Mais do que uma “cultura” homogénea, o campaniforme parece ter funcionado como um conjunto de objetos e práticas de prestígio partilhado por elites de diferentes regiões.
A herança calcolítica não se esgota nos povoados. Os mesmos séculos viram erguer e reutilizar inúmeros monumentos do megalitismo — antas, tholoi e menires —, e o conjunto destes vestígios constitui um dos capítulos mais ricos da arqueologia portuguesa, estudado de forma continuada desde os finais do século XIX.
Perguntas frequentes
- O que é o Calcolítico?
- É o período pré-histórico de transição entre o Neolítico e a Idade do Bronze, marcado pelo início da metalurgia do cobre. Em Portugal desenrola-se sobretudo ao longo do terceiro milénio a.C.
- Quais são os principais povoados calcolíticos portugueses?
- Destacam-se os povoados fortificados de Leceia (Oeiras), do Zambujal (Torres Vedras) e de Vila Nova de São Pedro (Azambuja), na Estremadura, e o grande recinto de fossos dos Perdigões, no Alentejo.
- O que é a cerâmica campaniforme?
- É um tipo de vaso em forma de sino, decorado com bandas incisas ou impressas, que circulou por grande parte da Europa ocidental nos finais do Calcolítico. O estuário do Tejo é uma das áreas onde surgem exemplares marítimos antigos.