Arqueologia
Castro de Leceia
O Castro de Leceia, em Oeiras, é um povoado fortificado do Neolítico final e do Calcolítico com estratigrafia rara na Estremadura portuguesa.
O Castro de Leceia, mais correntemente designado Povoado Pré-Histórico de Leceia, ergue-se num esporão calcário sobre a margem direita do vale da Ribeira de Barcarena, na freguesia de Barcarena, concelho de Oeiras. É um dos sítios arqueológicos mais bem estudados da Península de Lisboa e um caso de referência para a compreensão das primeiras sociedades fortificadas do Ocidente europeu.
Uma sequência estratigráfica rara
O que distingue Leceia de tantos outros povoados da Estremadura é a sua estratigrafia. As camadas conservadas registam, de forma quase contínua, a passagem do Neolítico final ao Calcolítico, permitindo seguir a evolução do espaço habitado ao longo de mais de um milénio. As datações de radiocarbono situam a ocupação entre cerca de 3300 e 2200 a.C.
A camada mais antiga, do Neolítico final estremenho (c. 3300–2900 a.C.), assenta diretamente sobre o substrato geológico. Após um curto abandono, o sítio é reocupado no início do Calcolítico, altura em que se constrói o aparato defensivo que viria a tornar Leceia célebre. As fases seguintes — Calcolítico inicial, pleno e final, esta última marcada pela cerâmica campaniforme — sobrepõem-se sem grandes hiatos, oferecendo uma leitura excecionalmente fina da cultura material.
Poucos povoados em Portugal permitem ler, num único corte estratigráfico, a transição entre o mundo das primeiras comunidades agrícolas do Neolítico e a sociedade calcolítica plenamente fortificada.
O sistema defensivo
No início do Calcolítico foi erguido um dispositivo defensivo organizado em três linhas de muralhas, construídas com blocos de calcário local e reforçadas externamente por bastiões semicirculares. Estas estruturas articulavam-se com dois escarpados naturais pré-existentes, que serviam de defesa adicional. O recinto, com cerca de um hectare de área construída, dispunha de entradas protegidas e revela um planeamento prévio do espaço, de carácter proto-urbano, que coloca Leceia entre os mais importantes povoados fortificados da Idade do Cobre na Europa ocidental.
No interior, as casas evoluíram de plantas circulares, nas fases mais antigas, para construções de tendência elipsoidal, com adensamento progressivo da malha habitacional. A população terá atingido, no seu apogeu, algumas centenas de habitantes.
Investigação e classificação
Os primeiros achados foram documentados em 1878 por Carlos Ribeiro, geólogo e pioneiro da arqueologia portuguesa, que apresentou os materiais à Academia das Ciências de Lisboa. Já no século XX, José Leite de Vasconcellos interveio no local. As escavações sistemáticas, porém, devem-se ao programa de investigação dirigido por João Luís Cardoso, desenvolvido de forma continuada entre 1983 e 2002, ao longo de mais de dezasseis campanhas que expuseram as estruturas hoje visíveis.
O conjunto está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1963 e foi posteriormente musealizado, encontrando-se aberto a visita. Os materiais recolhidos — estatuetas, utensílios de pedra lascada e polida, cerâmica e vestígios de metalurgia do cobre — fazem de Leceia um arquivo privilegiado do III milénio a.C.
Pela sua dimensão e complexidade, Leceia inscreve-se no mesmo universo dos grandes povoados calcolíticos da Estremadura e do Alentejo, a par do Castro do Zambujal, de Vila Nova de São Pedro e do recinto de fossos dos Perdigões, com os quais partilha tanto a cronologia como muitos traços de cultura material.
Perguntas frequentes
- Onde fica o Povoado Pré-Histórico de Leceia?
- Situa-se no lugar de Leceia, freguesia de Barcarena, concelho de Oeiras, distrito de Lisboa, num esporão sobre a margem direita do vale da Ribeira de Barcarena.
- De que época é o povoado de Leceia?
- A ocupação abrange o Neolítico final e o Calcolítico, com datações de radiocarbono entre cerca de 3300 e 2200 a.C., mais de um milénio de habitação quase contínua.
- Leceia está classificado como património?
- Sim. O sítio foi classificado como Imóvel de Interesse Público em 1963, encontrando-se musealizado e aberto a visita.