Património Imaterial
Caretos de Podence
Os Caretos de Podence, o Entrudo Chocalheiro de Macedo de Cavaleiros inscrito pela UNESCO em 2019: máscaras de lata, franjas de lã e chocalhos.
Os Caretos de Podence são a figura central do Entrudo Chocalheiro desta pequena aldeia transmontana, no concelho de Macedo de Cavaleiros, distrito de Bragança. Vestidos com fatos cobertos de franjas de lã colorida — vermelha, amarela e verde —, rosto oculto por máscara de lata ou de couro e cintura carregada de chocalhos, os Caretos correm e saltam pelas ruas durante os dias de Carnaval, num ritual ruidoso e ancestral que assinala o fim do inverno e a chegada da primavera. Em dezembro de 2019, a UNESCO inscreveu as Festas de Inverno, Carnaval de Podence, na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
O ritual e as suas figuras
O auge da festa decorre entre o Domingo Gordo e a Terça-feira de Entrudo. Os Caretos — quase sempre rapazes solteiros da aldeia — percorrem as ruas em bandos, fazendo soar os chocalhos numa cadência inconfundível. Sob o anonimato da máscara, perseguem e cercam as raparigas, dançando à sua volta com um movimento rítmico das ancas, o chamado «chocalhar». Este gesto, lúdico e provocador, ecoa uma dimensão simbólica antiga, associada à fertilidade e à renovação dos ciclos agrários.
A indumentária é parte essencial da identidade do Careto. O fato, outrora confecionado a partir de colchas e mantas domésticas, é hoje composto por panos cobertos de franjas de lã densa e vistosa. A máscara, peça que distingue cada figura, apresenta traços angulares e cores fortes, com nariz proeminente. À cintura, alinha-se a coleção de chocalhos que dá nome ao Entrudo Chocalheiro e que faz da sonoridade um elemento tão marcante quanto a aparência.
O Careto não fala: comunica pelo gesto, pela máscara e pelo estrondo dos chocalhos. É no anonimato que reside a sua liberdade ritual.
Raízes e transmissão
A tradição tem raízes profundas no calendário rural transmontano, partilhando traços com outras manifestações ibéricas de máscaras de inverno. A sua sobrevivência deve muito ao trabalho comunitário de Podence: em 1985 foi fundada uma associação local dedicada à salvaguarda dos Caretos, e em 2004 abriu a Casa do Careto, espaço museológico e centro de interpretação da festa. Estas estruturas asseguraram a transmissão do saber-fazer das máscaras e dos fatos a novas gerações, num contexto de despovoamento que ameaça muitas tradições do interior.
O reconhecimento internacional veio acompanhado de um plano de salvaguarda, condição da candidatura aceite pela UNESCO. O desafio é equilibrar a notoriedade — o Carnaval atrai hoje dezenas de milhares de visitantes — com a preservação do carácter comunitário e espontâneo que sempre definiu a festa.
Lugar no património imaterial português
Os Caretos integram um conjunto notável de manifestações reconhecidas no património cultural imaterial de Portugal. A festa está documentada com maior detalhe na ficha dedicada às Festas de Inverno de Podence, e dialoga com saberes artesanais que a tornam possível, como a manufatura de chocalhos que arma cada Careto com a sua sinfonia de metal. Mais do que um espetáculo, o Entrudo Chocalheiro de Podence é um testemunho vivo da cultura transmontana e da capacidade de uma pequena comunidade para guardar e renovar a sua memória.
Perguntas frequentes
- Quando se realiza o Carnaval dos Caretos de Podence?
- Os Caretos saem às ruas sobretudo no Domingo Gordo e na Terça-feira de Entrudo, ainda que as celebrações do Entrudo Chocalheiro se prolonguem por vários dias de Carnaval.
- De que são feitas as máscaras dos Caretos?
- As máscaras são tradicionalmente feitas de lata ou de couro, frequentemente pintadas de vermelho, amarelo e preto, com nariz saliente; o fato é coberto de franjas de lã colorida e cingido por uma fileira de chocalhos.
- Porque foram os Caretos de Podence reconhecidos pela UNESCO?
- Em 2019 a UNESCO inscreveu as Festas de Inverno, Carnaval de Podence, na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, reconhecendo um ritual comunitário ligado ao fim do inverno e à chegada da primavera.