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Património Imaterial
Caretos de Podence: Festas de Inverno e Carnaval de Podence
Os Caretos de Podence, o Entrudo Chocalheiro de Macedo de Cavaleiros: máscaras, franjas de lã e chocalhos nas Festas de Inverno inscritas pela UNESCO em 2019.
- Localização
- Podence, Bragança
- UNESCO
- Património Imaterial · desde 2019
Os Caretos de Podence são a figura central do Entrudo Chocalheiro desta pequena aldeia transmontana do concelho de Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança. Vestidos com fatos cobertos de franjas de lã colorida — vermelha, amarela e verde —, rosto oculto por máscara de lata, couro ou madeira e cintura carregada de chocalhos, correm e saltam pelas ruas durante os dias de Carnaval, num ritual ruidoso e ancestral que assinala o fim do inverno e a chegada da primavera. Em dezembro de 2019, a UNESCO inscreveu as Festas de Inverno, Carnaval de Podence na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (referência 01463).
Um rito de inverno transmontano
O Carnaval de Podence inscreve-se no ciclo das festas de inverno, associadas à passagem da estação fria e à renovação dos ciclos agrários. O auge da festa decorre entre o Domingo Gordo e a Terça-feira de Entrudo, mas as celebrações do Entrudo Chocalheiro estendem-se por vários dias.
Os Caretos saem em bandos e percorrem as ruas fazendo soar os chocalhos numa cadência inconfundível. Sob o anonimato da máscara, perseguem e cercam sobretudo as raparigas solteiras, dançando à sua volta com um movimento rítmico das ancas — a chamada «chocalhada». Este gesto, lúdico e provocador, ecoa uma dimensão simbólica antiga, associada à fertilidade, e protagoniza uma inversão temporária da ordem quotidiana: a transgressão controlada liberta tensões e reafirma, paradoxalmente, os laços da comunidade.
O Careto não fala: comunica pelo gesto, pela máscara e pelo estrondo dos chocalhos. A máscara não esconde apenas o rosto — suspende, por alguns dias, as regras da aldeia, para depois as devolver renovadas.
Na origem, a festa era um rito de passagem masculino, protagonizado sobretudo pelos rapazes da aldeia; hoje alargou-se a mulheres e crianças. Os mais novos, os facanitos, imitam os Caretos e aprendem desde cedo a vestir o fato, garantindo a renovação geracional da tradição.
A máscara, o fato e os chocalhos
A indumentária é parte essencial da identidade do Careto. O fato, outrora confecionado a partir de colchas vermelhas e mantas domésticas, é coberto de franjas de lã densa e vistosa. A máscara, peça que distingue cada figura, apresenta traços angulosos e cores fortes — vermelho, amarelo e preto —, com nariz proeminente; é feita de lata, de couro ou de madeira.
À cintura alinha-se a fileira de chocalhos que dá nome ao Entrudo Chocalheiro e faz da sonoridade um elemento tão marcante quanto a aparência. É um laço direto com outro saber reconhecido pela UNESCO, a manufatura de chocalhos, que arma cada Careto com a sua sinfonia de metal.
Da quase extinção ao palco mundial
Como tantas tradições rurais transmontanas, o Carnaval de Podence esteve à beira do desaparecimento. Na década de 1960, a emigração e a guerra colonial esvaziaram a aldeia de jovens, e nos anos 1970 restavam apenas dois ou três fatos. A continuidade deveu-se a um movimento de revitalização que culminou, em 1985, na organização dos Caretos numa associação cultural — a Associação Grupo de Caretos de Podence —, empenhada em recuperar os fatos, fixar a memória e assegurar a transmissão. Em 2004 abriu a Casa do Careto, com o apoio da Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros, espaço de exposição e de interpretação da festa.
Essa estrutura associativa foi decisiva para a candidatura à UNESCO, aprovada a 12 de dezembro de 2019, em Bogotá, durante a 14.ª sessão do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial (decisão 14.COM 10.b.30). O reconhecimento veio acompanhado de um plano de salvaguarda, e o desafio é hoje equilibrar a notoriedade — o Carnaval atrai dezenas de milhares de visitantes — com a preservação do carácter comunitário que sempre definiu a festa.
Símbolo do Nordeste e do Carnaval ibérico
Os Caretos de Podence integram uma família mais vasta de máscaras e mascarados de inverno ibéricos, cuja origem é frequentemente associada a antigos cultos de fertilidade e renovação sazonal. A sua silhueta — franjas vermelhas, verdes e amarelas, máscara angulosa, chocalhos retumbantes — tornou-se um dos ícones visuais do Norte de Portugal.
A inscrição colocou Podence ao lado de outras expressões comunitárias portuguesas reconhecidas, como as Festas do Povo de Campo Maior, no conjunto do património cultural imaterial de Portugal. Mais do que atração turística, o Entrudo Chocalheiro permanece, para os habitantes da aldeia, um gesto anual de pertença e um testemunho vivo da capacidade de uma pequena comunidade para guardar e renovar a sua memória.
Perguntas frequentes
- Quando saem os Caretos de Podence?
- No Entrudo, antes da Quaresma. As grandes correrias dos Caretos acontecem no Domingo Gordo e na Terça-feira de Carnaval, mas as celebrações do Entrudo Chocalheiro prolongam-se por vários dias de Carnaval.
- De que são feitas as máscaras e os fatos dos Caretos?
- As máscaras, de traços angulosos e nariz saliente, são de lata, couro ou madeira, muitas vezes pintadas de vermelho, amarelo e preto. O fato, outrora feito de colchas vermelhas, é coberto de franjas de lã colorida — vermelha, amarela e verde — e cingido por uma fileira de chocalhos.
- Porque foram os Caretos de Podence reconhecidos pela UNESCO?
- Em dezembro de 2019, na 14.ª sessão do Comité Intergovernamental, em Bogotá, a UNESCO inscreveu as Festas de Inverno, Carnaval de Podence, na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (decisão 14.COM 10.b.30, referência 01463), reconhecendo um rito comunitário que assinala o fim do inverno e reforça a identidade da aldeia.
- Onde fica Podence?
- Podence é uma pequena aldeia do concelho de Macedo de Cavaleiros, no distrito de Bragança, em Trás-os-Montes, no Nordeste de Portugal.
Fontes
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