Património Imaterial
Latoaria
Latoaria: o ofício tradicional do latoeiro em Portugal, que transforma a folha-de-flandres e o latão em utensílios domésticos, agrícolas e decorativos.
A latoaria é a arte e o ofício do latoeiro, o artesão que produz, repara e recondiciona objetos em chapa metálica de cor clara ou amarelada — sobretudo a folha-de-flandres (chapa de aço revestida a estanho), o latão e a chapa galvanizada. Mais do que uma técnica, é um saber-fazer de extrema versatilidade, em que cada peça é desenhada e executada para responder a uma necessidade concreta da vida doméstica, agrícola ou festiva.
Um ofício forjado na chapa
O trabalho do latoeiro desenvolve-se inteiramente a frio. Começa pelo risco e pela planificação do desenho sobre a chapa, com recurso a moldes, compassos de bico e instrumentos de medida. Seguem-se o corte com a tesoura de chapa e a conformação da peça sobre a bigorna, executada à custa de vincos, dobras e curvaturas obtidas com martelos e maços de madeira. As partes unem-se por soldadura de chumbo-estanho, reforçando-se as junções de maior dimensão com agrafos sobrepostos, cuidadosamente batidos antes de soldar.
A oficina tradicional reúne uma bancada, bigornas assentes em cepos de madeira e barrotes com perfis côncavos para moldar superfícies curvas. Entre o ferramental contam-se alicates, fieiras, limas, ferro de soldar e moldes — muitos deles construídos pelo próprio artesão, à medida das peças que pretende fazer.
A funcionalidade é a verdadeira assinatura da latoaria: uma tampa articulada, uma asa bem equilibrada ou um bico calculado ao milímetro revelam mais engenho do que qualquer ornamento.
Das naus do Descobrimento à casa rural
A latoaria ganhou expressão em Portugal a partir do século XV, ligada à Época dos Descobrimentos, para o fabrico de recipientes de armazenamento de líquidos e secos a bordo das embarcações. No século XVI, os latoeiros alcançaram grande prestígio, ao ponto de o Senado de Lisboa lhes conceder regulamento próprio. Após um período de estagnação durante a Guerra da Restauração, a política mercantilista do Marquês de Pombal estimulou nova fase de desenvolvimento, e em finais do século XVIII a atividade tornou-se notável à escala nacional, com maior incidência nas vilas e cidades do norte do país.
A partir da segunda metade do século XIX, a introdução do alumínio e, mais tarde, do celuloide, dos plásticos e da chapa de ferro galvanizado fez recuar a procura dos objetos de folha-de-flandres — uma tendência que se agravou ao longo do século XX com a produção industrial em série.
Um saber em risco
Hoje restam pouquíssimos latoeiros em atividade, na maioria já idosos, o que coloca a latoaria entre os ofícios tradicionais mais ameaçados de Portugal. Alguns objetos mantêm utilidade prática — funis, regadores e utensílios ligados ao fabrico do queijo —, enquanto candeeiros, lanternas e peças decorativas encontram mercado como objetos ornamentais de inspiração rural. Não por acaso, o regador, artefacto típico da latoaria, foi adotado por diversas instituições como símbolo do uso racional da água.
A latoaria integra o universo dos ofícios do metal e dialoga com o ferro forjado e a arte do ferro, partilhando com a manufatura de chocalhos a mesma lógica de transformação artesanal da chapa e da liga. A par da olaria tradicional portuguesa, constitui um capítulo essencial do património cultural imaterial de Portugal, cuja transmissão depende hoje de um punhado de mestres e de programas de salvaguarda do saber-fazer.
Perguntas frequentes
- O que faz um latoeiro?
- O latoeiro é o artesão que produz, repara e recondiciona objetos em chapa metálica, sobretudo folha-de-flandres, latão e chapa galvanizada, trabalhando o metal a frio com tesoura, maço e ferro de soldar.
- Que objetos se fazem na latoaria?
- Regadores, candeeiros e candeias de azeite, funis, bilhas, alguidares, baldes, lanternas, formas de bolo e medidas para líquidos e secos, peças marcadas pela extrema funcionalidade e por detalhes adaptados a cada uso.
- A latoaria ainda se pratica em Portugal?
- Sim, mas de forma residual. Restam pouquíssimos latoeiros em atividade, na maioria já idosos, num ofício em risco de desaparecimento após o avanço do plástico e da produção industrial.