- Início
- Arqueologia em Portugal
- Complexo Arqueológico dos Perdigões
Arqueologia
Complexo Arqueológico dos Perdigões
Os Perdigões, em Reguengos de Monsaraz, são um complexo de recintos de fossos neo-calcolíticos do Alentejo, santuário e necrópole entre c. 3400 e 2000 a.C.
- Localização
- Reguengos de Monsaraz, Évora
- Construção
- c. 3400–2000 a.C.
- Estilo
- Recintos de fossos pré-históricos
O Complexo Arqueológico dos Perdigões é um dos mais notáveis sítios da pré-história recente da Península Ibérica. Implantado num anfiteatro natural — uma bacia circular ligeiramente inclinada e aberta a nascente —, na Herdade dos Perdigões, a cerca de 1 km a norte de Reguengos de Monsaraz, ocupa uma área superior a 16 hectares delimitada por sucessivos recintos de fossos. Ao contrário das antas e dos menires que pontuam o Alentejo, os Perdigões não são monumentos de pedra, mas vastas estruturas escavadas no substrato, cujo traçado só na íntegra se revelou através da prospeção geofísica e da fotografia aérea.
Arquitetura e cronologia
O sítio organiza-se em torno de um conjunto de fossos concêntricos, de planta sensivelmente circular, identificados em número de mais de uma dezena, a que se associam estruturas de paliçada e diversos vãos de acesso. A sua construção e remodelação prolongaram-se por mais de mil anos, entre o final do Neolítico médio — por volta de 3400 a.C. — e o início da Idade do Bronze, cerca de 2000 a.C., abrangendo todo o Calcolítico do Sudoeste peninsular. Esta longa diacronia faz dos Perdigões um arquivo excecional para compreender a transformação das comunidades agro-pastoris ao longo do III milénio a.C.
A disposição dos recintos não parece ter sido arbitrária. Alguns dos acessos e de uma estrutura circular de madeira (um timber circle identificado no interior do complexo) revelam orientações relacionadas com o ciclo solar, apontando para os quadrantes dos solstícios e dos equinócios. A monumentalidade dos Perdigões reside, assim, menos na altura das suas estruturas do que na escala e na intencionalidade do seu desenho.
Os recintos de fossos como os Perdigões obrigaram a arqueologia a abandonar a oposição rígida entre “povoado” e “necrópole”: aqui, espaços de reunião, de ritual e de morte coexistiam num mesmo lugar carregado de significado.
Santuário e necrópole
A escavação revelou nos Perdigões uma densidade notável de contextos funerários e rituais. Sepulturas coletivas, depósitos de ossos humanos cremados e manipulados, concentrações de fauna e abundância de materiais exógenos — marfim, âmbar, variscite, lâminas de sílex e ídolos — demonstram que o sítio era um polo de agregação de comunidades dispersas e um centro de circulação de bens de prestígio à escala suprarregional. Esta acumulação de objetos e de gestos cerimoniais aproxima os Perdigões de um grande santuário, integrado na densa paisagem megalítica do território, próxima do complexo megalítico de Monsaraz e dos seus menires e cromeleques.
Investigação e classificação
Os Perdigões foram identificados na década de 1980 por Mário Varela Gomes, na sequência da descoberta de um núcleo de menires na herdade, mas só vieram a ser intervencionados nos anos 1990, após danos provocados por lavouras profundas. Desde o início do século XXI, o sítio é objeto de um programa de investigação continuado, coordenado por António Valera no âmbito da ERA Arqueologia e do Núcleo de Investigação Arqueológica, que combina escavação, prospeção geofísica e análises laboratoriais. Em reconhecimento do seu valor, o complexo foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 2/2019, de 28 de janeiro.
Enquanto expressão maior do megalitismo e da arquitetura de fossos do Alentejo central, os Perdigões dialogam com outros marcos pré-históricos da região, do Cromeleque dos Almendres, perto de Évora, à paisagem ancestral que envolve a vila medieval de Monsaraz, oferecendo uma das leituras mais completas da longa pré-história do Sul de Portugal.
Perguntas frequentes
- O que é o Complexo Arqueológico dos Perdigões?
- É um grande complexo de recintos de fossos do Neolítico final e do Calcolítico, situado em Reguengos de Monsaraz, que funcionou simultaneamente como espaço de agregação, santuário e necrópole entre cerca de 3400 e 2000 a.C.
- Onde ficam os Perdigões?
- Ficam na Herdade dos Perdigões, cerca de 1 km a norte da vila de Reguengos de Monsaraz, no distrito de Évora, no interior do Alentejo central.
- Os Perdigões estão classificados?
- Sim. O complexo foi classificado como Monumento Nacional pelo Decreto n.º 2/2019, de 28 de janeiro, reconhecendo o seu valor excecional para a pré-história peninsular.
Fontes
Relacionado
arqueologiaO Megalitismo em PortugalO megalitismo em Portugal: antas, menires e cromeleques do Neolítico e Calcolítico, do Alto Alentejo aos Almendres, a arquitetura monumental mais antiga da Europa.
arqueologiaO Calcolítico em PortugalO Calcolítico em Portugal: povoados fortificados, metalurgia do cobre e cerâmica campaniforme no terceiro milénio a.C., de Leceia a Zambujal e Perdigões.
arqueologiaComplexo megalítico de MonsarazO complexo megalítico de Monsaraz, em Reguengos de Monsaraz, reúne o cromeleque do Xerez, menires e antas do Neolítico alentejano.
arqueologiaCromeleque dos AlmendresO Cromeleque dos Almendres, perto de Évora, é o maior conjunto de menires da Península Ibérica, erguido a partir do VI milénio a.C., no Neolítico.
lugaresMonsarazMonsaraz, vila medieval muralhada do Alentejo, no concelho de Reguengos de Monsaraz, suspensa sobre o Guadiana e o Grande Lago do Alqueva.arqueologiaArqueologia em PortugalGuia da arqueologia portuguesa: da arte paleolítica e do megalitismo aos castros e às cidades romanas, e dos grandes sítios às técnicas de escavação.