Património Mundial
Registos Oficiais de Macau durante a Dinastia Qing (1693–1886) — Chapas Sínicas
As Chapas Sínicas, registos oficiais de Macau na dinastia Qing (1693–1886), guardados na Torre do Tombo, em Lisboa, e inscritos na Memória do Mundo da UNESCO.
As Chapas Sínicas (東波檔) constituem uma das mais notáveis coleções documentais que ligam a Europa e a China. Trata-se de um arquivo de mais de 3600 documentos, produzidos e recebidos pela Procuratura do Leal Senado de Macau ao longo de quase dois séculos, entre 1693 e 1886, e hoje guardados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Em 30 de outubro de 2017, este conjunto foi inscrito no Registo Internacional da Memória do Mundo da UNESCO, numa candidatura conjunta da República Popular da China e de Portugal — um dos raros casos em que dois Estados partilham a responsabilidade por um mesmo bem documental.
Um arquivo da administração de Macau
A designação “chapas” deriva do termo usado para os documentos oficiais trocados entre as autoridades portuguesas de Macau e o mandarinato chinês; “sínicas” remete para a sua origem e língua chinesas. A coleção reúne mais de 1500 cartas oficiais redigidas em chinês, cinco livros com cópias das traduções portuguesas conservadas pelo Leal Senado e vários maços de documentação avulsa. O grosso do espólio corresponde à correspondência entre os procuradores do Leal Senado e os representantes do Império Celeste na região vizinha de Xiangshan, na província de Guangdong.
Estes registos não são meros papéis administrativos. Documentam, com rigor burocrático, o quotidiano de uma cidade fronteiriça: o comércio marítimo, o abastecimento de víveres, a fixação de impostos, a circulação de pessoas, os conflitos jurisdicionais e a atividade missionária cristã. Em conjunto, desenham o retrato de uma sociedade onde duas ordens políticas — a soberania chinesa e a presença portuguesa — coexistiam num equilíbrio negociado caso a caso.
Encontro do Ocidente com o Oriente
Poucos arquivos mostram, de forma tão concreta, como o diálogo entre civilizações se fazia não em grandes tratados, mas na troca paciente e diária de ofícios entre funcionários.
Macau foi, durante séculos, um ponto de encontro singular entre o mundo europeu e o mundo chinês. As Chapas Sínicas testemunham essa condição de charneira: revelam o modo como a dinastia Qing geria a relação com os “bárbaros” do Ocidente e como Macau funcionava simultaneamente como entreposto comercial e como instância diplomática. Para os historiadores, a coleção é uma fonte de primeira ordem sobre a expansão europeia na Ásia e sobre as transformações da sociedade chinesa no longo período que antecedeu o declínio do Império Qing.
O valor da coleção reside também na sua bilinguidade. Ao conservar os originais chineses e as respetivas traduções portuguesas, o arquivo permite confrontar duas formas de registar o mesmo acontecimento — uma raridade que faz das Chapas Sínicas um laboratório para o estudo da tradução, da diplomacia e da administração intercultural.
Reconhecimento pela UNESCO
O percurso de reconhecimento internacional teve duas etapas. Em maio de 2016, na 7.ª Reunião Geral do Comité da Memória do Mundo para a Ásia-Pacífico (MOWCAP), realizada em Hue, no Vietname, a coleção foi inscrita no registo regional. No ano seguinte, em 2017, ascendeu ao Registo Internacional da Memória do Mundo, juntando-se a outros bens documentais portugueses distinguidos pelo programa, como o Tratado de Tordesilhas, o Corpo Cronológico e o diário da primeira viagem de Vasco da Gama.
A inscrição reforça o papel da Torre do Tombo como guardiã de fundos de alcance global e integra as Chapas Sínicas no vasto conjunto do património mundial e documental associado a Portugal, sublinhando uma história partilhada que continua a unir Lisboa e Macau.
Perguntas frequentes
- O que são as Chapas Sínicas?
- São um conjunto de mais de 3600 documentos administrativos produzidos e recebidos pela Procuratura do Leal Senado de Macau no contacto oficial com as autoridades chinesas de Guangdong entre 1693 e 1886. Incluem cartas em chinês, traduções portuguesas e documentação avulsa.
- Onde estão guardadas as Chapas Sínicas?
- Estão à guarda do Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, que integra a coleção desde o século XIX.
- Quando foram inscritas na Memória do Mundo?
- Foram inscritas no Registo Internacional da Memória do Mundo da UNESCO em 30 de outubro de 2017, numa candidatura conjunta da China e de Portugal, após terem sido reconhecidas no registo regional da Ásia-Pacífico (MOWCAP) em 2016.