Arqueologia

Naufrágios do Arade

Naufrágios do Arade: complexo de arqueologia subaquática no estuário do rio Arade, entre Portimão e Ferragudo, com embarcações e ancoradouros da época romana…

Os naufrágios do Arade constituem um dos mais ricos complexos de arqueologia náutica e subaquática de Portugal. Distribuem-se pelo leito e pelo estuário do rio Arade, na zona que separa a cidade de Portimão de Ferragudo, no concelho de Lagoa, e prolongam-se até à embocadura, frente à Ponta do Altar. Ao longo de mais de dois mil anos, o Arade foi palco de uma intensa dinâmica marítima, claramente legível nos vestígios que chegaram aos nossos dias e que documentam a navegação, o comércio e a circulação de bens entre o Mediterrâneo e o Atlântico.

Um repositório de longa diacronia

O potencial arqueológico do estuário tornou-se notório em 1970, quando as dragagens da foz do rio puseram a descoberto importantes vestígios, sobretudo de época romana, e vários naufrágios. A investigação sistemática, iniciada em 1993, viria a confirmar o valor científico e patrimonial do sítio. Desde a década de 1970, terão sido recolhidos cerca de três mil objetos do leito do Arade, com cronologias que vão da Idade do Ferro ao século XX.

Entre os arqueossítios identificados destaca-se o designado Arade B, reconhecido em 2001 durante os trabalhos do projeto ProArade. Trata-se de um contexto complexo, que reúne realidades deposicionais de épocas diversas — vestígios de naufrágios e ancoradouros romanos e modernos, a par de elementos mais recentes. A própria natureza estuarina do sítio, sujeito a correntes e a assoreamento, explica a sobreposição de materiais de períodos distintos numa mesma área. Esta diversidade aproxima o Arade de outros contextos subaquáticos portugueses, como o do Parque Arqueológico da Baía de Angra, e integra-se no campo mais vasto da arqueologia náutica e subaquática.

Os canhões do Arade e o porto histórico

O achado mais emblemático é o conjunto de dez bocas-de-fogo em bronze recolhidas ao largo da Ponta do Altar, frente a Ferragudo, entre 1992 e 2006. As peças associam-se ao naufrágio de um navio que terá estado ao serviço da coroa espanhola durante o período da União Ibérica (1580-1640). Consideradas uma das mais significativas coleções de artilharia da época, foram classificadas como Tesouro Nacional em 2021. Três dos canhões encontram-se expostos no Museu de Portimão, estando os restantes depositados na coleção do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática, em Lisboa.

O estuário foi, ao longo dos séculos, o acesso natural ao porto de Silves e à orla do Barlavento algarvio, funções que ligam estes vestígios à história da navegação fluvial e marítima da região e à arqueologia islâmica de Silves, na cabeceira do mesmo rio. A montante e a sul, outros estuários atlânticos — como o do Sado, junto a Alcácer do Sal — partilham idêntica vocação portuária desde a Antiguidade.

Investigação e musealização

Nos últimos anos, o estudo do Arade tem sido retomado em campanhas de cooperação internacional, incluindo parcerias com instituições norueguesas e a investigação de naufrágios estuarinos como o sítio designado Arade 23, de cronologia oitocentista. Está em curso o projeto MUSA, que prevê a criação de núcleos museológicos nas duas margens — em Portimão e em Lagoa — destinados à investigação, conservação e divulgação pública dos milhares de achados recolhidos no rio, assegurando que este património subaquático possa ser estudado e fruído de forma duradoura.

Perguntas frequentes

Onde ficam os naufrágios do Arade?
Os arqueossítios distribuem-se pelo estuário e leito do rio Arade, na zona que separa a cidade de Portimão de Ferragudo (concelho de Lagoa), no Algarve, com prolongamento até à embocadura, frente à Ponta do Altar.
De que épocas são os naufrágios do Arade?
O conjunto abrange uma longa diacronia, da Idade do Ferro e da época romana à Idade Moderna e ao século XIX, refletindo o uso continuado do porto como ligação entre o Mediterrâneo e o Atlântico.
O que são os canhões do Arade classificados como Tesouro Nacional?
São dez bocas-de-fogo em bronze recolhidas ao largo da Ponta do Altar entre 1992 e 2006, associadas ao naufrágio de um navio do período da União Ibérica (1580-1640). Foram classificadas como Tesouro Nacional em 2021.
É possível visitar os achados do Arade?
Três dos canhões estão expostos no Museu de Portimão. Está em curso o projeto MUSA, que prevê núcleos museológicos em Portimão e em Lagoa para musealização dos achados subaquáticos.

Fontes

  1. A arqueologia do estuário do rio Arade — CHAM / NOVA FCSH
  2. Dez canhões do Rio Arade classificados como Tesouro Nacional — Sul Informação
  3. Lagoa vai ter um Museu Arqueológico à beira do rio Arade — Sul Informação