Arqueologia
Arqueologia náutica e subaquática
A arqueologia náutica e subaquática em Portugal: naufrágios, portos e construção naval estudados nas águas atlânticas, estuarinas e lagunares do território.
A arqueologia náutica e subaquática estuda os vestígios materiais da relação entre as comunidades humanas e a água, com particular incidência sobre embarcações, cargas, portos e estruturas conservados em meio submerso. Para um país de longa fachada atlântica e densa rede fluvial e lagunar como Portugal, este é um dos campos mais férteis e, ao mesmo tempo, mais frágeis do património arqueológico nacional: no leito de rios, estuários e do mar repousa um arquivo material da pesca, do comércio costeiro e da expansão marítima que dificilmente sobrevive em contexto terrestre.
Convém distinguir os dois termos que dão nome à disciplina. A arqueologia náutica centra-se nos navios e na cultura da navegação — arquitetura naval, técnicas de construção, equipamentos de bordo — independentemente de os achados estarem ou não debaixo de água. A arqueologia subaquática define-se pelo meio: é a investigação conduzida em ambiente submerso, que tanto pode incidir sobre um naufrágio como sobre um cais soterrado, um conjunto de ânforas ou uma antiga linha de costa entretanto afogada. Os dois domínios cruzam-se com frequência, mas não são sinónimos.
Um arquivo no fundo das águas
A particularidade dos sítios submersos reside na conservação. A ausência de oxigénio nos sedimentos saturados de água preserva matéria orgânica — madeira, cordame, cestaria, restos alimentares — que em terra desapareceria por completo. Um naufrágio funciona, por isso, como uma cápsula temporal: congela num instante um navio, a sua carga e o quotidiano da tripulação. Este potencial é também a sua vulnerabilidade, pois a exposição ao oxigénio, as dragagens e o saque comprometem irremediavelmente os contextos.
Cada naufrágio é uma fotografia involuntária de um dia preciso: a carga estivada, as ferramentas em uso e a refeição interrompida, tal como estavam no momento do desastre.
A diversidade de meios em Portugal é notável. O estuário do Tejo guarda vestígios desde a Antiguidade, entre os quais o célebre naufrágio identificado com a nau Nossa Senhora dos Mártires, perdida na barra de Lisboa em 1606. A laguna de Aveiro constitui um caso singular de arqueologia portuária e de naufrágios medievais e modernos, protegidos pelo assoreamento que selou os contextos. No Algarve, o estuário do rio Arade reúne uma sequência de naufrágios estudados em campanhas sucessivas, de cronologias que vão da época romana ao século XIX. Já no Atlântico médio, a baía de Angra do Heroísmo, nos Açores, revelou-se um dos arqueossítios subaquáticos mais ricos do território, com vários navios afundados numa enseada que servia de fundeadouro às carreiras da Índia e do Brasil.
Da prática de mergulho à gestão científica
A gestão pública desta disciplina em Portugal estruturou-se a partir da década de 1980, no âmbito do Museu Nacional de Arqueologia, e consolidou-se com a criação do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS), dirigido durante anos por Francisco Alves. Hoje integrado na orgânica da Direção-Geral do Património Cultural, o CNANS acompanha achados fortuitos, projetos de investigação, situações de emergência e grandes obras no litoral, além de manter a Carta Arqueológica Subaquática de Portugal.
Um marco decisivo foi a ratificação, em 2006, da Convenção da UNESCO de 2001 para a Proteção do Património Cultural Subaquático. Este instrumento consagra princípios essenciais: a preferência pela preservação in situ, a proibição da exploração comercial dos sítios e a cooperação internacional na investigação. Portugal foi um dos primeiros Estados europeus a vincular-se, alinhando a sua legislação com uma visão dos naufrágios não como tesouros a explorar, mas como bens culturais de interesse coletivo.
Naufrágios, portos e saber naval
O contributo da disciplina ultrapassa o registo de desastres. O estudo das madeiras e das técnicas de montagem dos cascos ilumina a evolução da construção naval, dialogando diretamente com o saber-fazer da arte naval tradicional que ainda hoje se pratica em estaleiros portugueses. As cargas — ânforas, cerâmicas, artilharia, moedas — documentam rotas comerciais e contactos entre regiões. E os contextos portuários soterrados, como os identificados em obras urbanas junto a frentes ribeirinhas, revelam o funcionamento dos ancoradouros ao longo dos séculos. Assim entendida, a arqueologia náutica e subaquática portuguesa lê, no silêncio do fundo das águas, capítulos da história que nenhuma outra fonte permite reconstituir.
Perguntas frequentes
- O que distingue arqueologia náutica de arqueologia subaquática?
- A arqueologia náutica estuda embarcações e a cultura ligada à navegação, tenham os vestígios sido encontrados ou não debaixo de água. A arqueologia subaquática designa qualquer investigação realizada em meio submerso, que pode incluir portos, ânforas, estruturas ou cidades, e não apenas navios.
- Quem gere o património arqueológico submerso em Portugal?
- A gestão pública cabe à Direção-Geral do Património Cultural, sobretudo através do Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática (CNANS), responsável por achados fortuitos, projetos de investigação e acompanhamento de obras costeiras.
- Portugal aderiu à convenção da UNESCO sobre património subaquático?
- Sim. Portugal ratificou a Convenção da UNESCO de 2001 para a Proteção do Património Cultural Subaquático em 2006, comprometendo-se com a preservação in situ e o combate à exploração comercial dos sítios submersos.