Monumentos
Sé de Faro
A Sé de Faro, catedral medieval erguida na vila-adentro algarvia sobre antiga mesquita, com fachada gótica e célebre órgão barroco achinesado.
No coração da vila-adentro, o núcleo amuralhado mais antigo de Faro, ergue-se a Sé, catedral que condensa em si quase oito séculos de história algarvia. Implantada no Largo da Sé, num dos pontos mais elevados da cidade velha, é o monumento que marca a passagem de Faro a sede do bispado e o centro simbólico de um Algarve cristianizado após a Reconquista.
Das origens à fundação cristã
A construção do templo cristão iniciou-se em 1251, poucos anos depois de D. Afonso III ter tomado Faro aos muçulmanos, encerrando a Reconquista do território continental português. A tradição quer que a igreja se tenha erguido sobre uma mesquita e, antes desta, sobre uma basílica paleocristã — uma sucessão de cultos plausível, ainda que não confirmada pela arqueologia. O primeiro edifício era modesto e cedo se revelou insuficiente: foi ampliado a partir de 1321, no reinado de D. Dinis, e profundamente reformulado ao longo do século XV.
Desse período medieval subsistem os elementos mais expressivos da fachada: a robusta torre sineira, o portal principal em arco e as capelas do transepto, vestígios góticos que sobreviveram às vicissitudes posteriores.
Catedral do Algarve
O momento decisivo da história do edifício chegou em 1577, quando a sede episcopal do Algarve foi transferida de Silves para Faro. A antiga Igreja de Santa Maria tornava-se, assim, catedral, refletindo o deslocamento do centro de gravidade político e económico da região para a cidade ribeirinha da ria Formosa.
A nova dignidade não a poupou, porém, a graves provações. Em 1596, durante o saque de Faro pelas forças inglesas comandadas pelo Conde de Essex, o templo foi incendiado e arruinado. Seguiram-se danos provocados pelos sismos de 1722 e, sobretudo, pelo grande terramoto de 1755, que obrigaram a sucessivas campanhas de reconstrução.
A Sé de Faro não é um monumento de um só estilo, mas um palimpsesto: cada catástrofe deixou-a mais marcada pela arquitetura do seu tempo, e é essa estratificação que hoje a torna tão eloquente.
Um interior de muitos tempos
Dessas reconstruções resultou o caráter compósito do edifício, onde convivem o gótico medieval, o maneirismo do chamado estilo chão e a exuberância barroca. A planta é longitudinal, dividida em três naves separadas por arcos de volta perfeita assentes em colunas de ordem dórica, prolongando-se numa capela-mor e em capelas laterais.
O interior é revestido por extensos painéis de azulejo seiscentista e setecentista, em azul e branco, que cobrem paredes e capelas com cenas hagiográficas e motivos ornamentais. A peça mais celebrada é, no entanto, o órgão barroco do início do século XVIII, decorado com pinturas achinesadas executadas por volta de 1751 — uma raridade no panorama do órgão histórico português, em que o gosto pela chinoiserie europeia se infiltrou no mobiliário litúrgico.
Da torre, acessível ao visitante, descortina-se a ria Formosa e o casario da cidade velha, enquadrando a catedral na paisagem lagunar que define este troço do litoral do Algarve. Integrada no conjunto das sés e catedrais portuguesas, a Sé de Faro foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1955, reconhecimento do seu valor patrimonial enquanto principal monumento religioso da cidade.
Perguntas frequentes
- A Sé de Faro foi construída sobre uma mesquita?
- A tradição afirma que a catedral se ergueu sobre uma mesquita islâmica e, antes desta, sobre um templo paleocristão. A construção cristã iniciou-se em 1251, pouco depois da conquista de Faro por D. Afonso III, mas a sobreposição direta à mesquita não está confirmada por evidência arqueológica.
- Quando passou Faro a ser sede do bispado do Algarve?
- A transferência da sede episcopal de Silves para Faro ocorreu em 1577, elevando a Igreja de Santa Maria à dignidade de catedral do Algarve.
- O que tem de especial o órgão da Sé de Faro?
- É um órgão barroco do início do século XVIII, notável pela decoração com pinturas achinesadas (chinoiserie) executadas em meados de Setecentos, um dos exemplares mais singulares do órgão histórico português.