Patrimónios Estudos sobre o património cultural português

Monumentos

Igreja de Cárquere

Igreja matriz de Cárquere, em Resende: antigo mosteiro agostinho com a capela dos Resendes, portais manuelinos e torre medieval; Monumento Nacional.

Perguntas frequentes Fontes
Fachada de granito da Igreja de Cárquere, com o portal manuelino de arco conopial, o óculo, a janela e a torre ameada atrás do arco de passagem
Vimacopeca, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons
Localização
Cárquere, Resende, Viseu
Construção
Mosteiro fundado no século XII; torre e capela-mor medievais; igreja transformada no ciclo manuelino (século XVI)

A Igreja matriz de Cárquere, ou Igreja de Santa Maria de Cárquere, fica na Rua do Mosteiro, na freguesia de Cárquere, no concelho de Resende, na encosta norte da Serra de Montemuro. É o que resta de um mosteiro de cónegos regrantes de Santo Agostinho, ligado pela tradição a Egas Moniz e ao infante Afonso Henriques e, mais tarde, ao panteão dos senhores de Resende. É Monumento Nacional e a Rota do Românico inclui-a, com o nome de Mosteiro de Santa Maria de Cárquere, entre os seus monumentos. Do românico sobra pouco; o que se vê é sobretudo uma igreja de transição, gótica e manuelina.

Entre a lenda e a história

A lenda diz que Egas Moniz, aio de D. Afonso Henriques, levou a Cárquere o infante, que teria nascido com defeito nas pernas, e que ali, por intercessão da Virgem, houve cura milagrosa, na sequência da qual teria sido fundado o mosteiro. O registo do Património Cultural, I.P. conta a fundação do convento no século XII por iniciativa de Egas Moniz (c. 1080-1146), que obtivera a honra de Resende, e acrescenta que outras fontes apontam 1099 e o conde D. Henrique. A Rota do Românico trata a atribuição a Egas Moniz como lenda e situa a fundação no segundo quartel do século XII. Refere ainda que Egas Moniz terá deixado legados ao mosteiro no testamento de 1146 e que a bula de Nicolau III de 1279 confirma a sua autonomia; em 1320 era o único mosteiro de cónegos regrantes de Santo Agostinho da diocese de Lamego.

No século XV foi entregue a eclesiásticos que o guia da Rota diz menos cientes das suas funções e, em 1511, a um abade comendatário. Em 1541, por ordem de D. João III, Cárquere passou para a Companhia de Jesus e, segundo o registo, foi o primeiro espaço dos jesuítas em Portugal; a Rota diz que a entrega foi definitiva em 1562 e que uma bula de 1578 passou as rendas para o Colégio de Coimbra. Com a expulsão dos jesuítas, em 1759, o complexo ficou sob a administração da Universidade de Coimbra e, de acordo com o registo, só em 1835 foi integrado nos Bens Próprios Nacionais. Reduzido a igreja paroquial, entrou em declínio. Em 1910 foi incluído na primeira lista de monumentos nacionais.

A torre e a fresta românicas

O edifício atual resulta de uma apropriação manuelina da fábrica românica primitiva. Dessa primeira fase a Rota destaca a torre, assente num afloramento de granito, de natureza defensiva e senhorial, que alguns autores datam do último quartel do século XII ou já do XIII, e a fresta da capela dos Resendes. Esta é decorada nos dois lados: com motivos geométricos no interior e, no exterior, com as chamadas beak-heads, animais unifrontais de bico saliente, de origem anglo-saxónica; os capitéis têm aves de pescoços enlaçados ou de asas abertas. A organização dos espaços, dentro da igreja e no cemitério, que ocupa o antigo claustro, continua a ser românica.

Gótico e manuelino

Do período gótico é a capela-mor, com abóbada de nervuras e janela mainelada, visível apenas do exterior. Entre ela e a nave única, de teto de madeira, abre-se um arco triunfal de três arquivoltas sobre colunas. O portal principal, de volta perfeita com três arquivoltas, e o portal lateral norte são da campanha manuelina do século XVI; sobre o principal há um arco conopial e um óculo, e a torre sineira está adossada ao lado direito. Para o contexto, veja o estilo manuelino e a arquitetura gótica em Portugal.

Na nave subsistem pinturas murais da mesma época, sob o retábulo da parede de fundo: Santo António e Santa Luzia de um lado e um grupo de anjos esvoaçantes do outro. O guia da Rota propõe os anos 30 ou 40 do século XVI e a cronologia da página refere uma campanha de pintura entre 1545 e 1560. O retábulo-mor é de talha dourada, tripartido por colunas torsas (veja a talha dourada); a Rota fala das estruturas de altares dos séculos XVII e XVIII, de estilo nacional.

Os Resendes e as duas Virgens

A capela funerária dos Senhores de Resende, no lado do Evangelho, tem quatro arcas tumulares, duas embutidas em arcossólios. O guia da Rota diz que nela está sepultado Vasco Martins de Resende, o Trovador, com um filho e um parente também chamado Vasco, e que todas as sepulturas são góticas; a Rota admite que o panteão tenha sido feito na primeira metade do século XV. No mesmo lado há uma pia baptismal muito decorada com motivos vegetais e cordas em espiral. A linhagem inspirou Eça de Queirós em A Ilustre Casa de Ramires, segundo o guia.

Cárquere é um santuário mariano e a Virgem é venerada sob dois títulos: a Virgem de Cárquere, sentada com o Menino, e a Senhora Branca ou Virgem do Leite, de pé e em calcário. A Rota data a primeira do século XIII e a segunda do século XIV. O registo oficial atribui a imagem de Nossa Senhora de Cárquere aos séculos VI-VII; é uma datação muito diferente da da Rota e não a conciliámos; trate-se a cronologia da imagem como por esclarecer.

Classificação

É Monumento Nacional pelo decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho de 1910. O Atlas e o registo não indicam zona especial de proteção. O diário de 1910 está digitalizado como imagem e não o transcrevemos. A igreja não integra nenhuma inscrição da UNESCO.

Preparar a visita

Na consulta de 5 de novembro de 2026, a página da Rota do Românico indicava visita por marcação (telefones +351 255 810 706 e +351 918 116 488; correio [email protected]), missa ao sábado às 17h (inverno) ou 19h (verão) e ao domingo às 8h15 e 11h30, festa do padroeiro a 15 de agosto, e o monumento como não acessível a pessoas com mobilidade reduzida. A página não indicava preço. A Rota refere que a integração na rota data de 2010 e que a envolvente foi requalificada em 2017, no Parque do Carvalhal. Estes dados podem mudar: confirme-os na página oficial do monumento antes de se deslocar.

No mesmo concelho, a Igreja de São Martinho de Mouros também é Monumento Nacional. Para a região, veja a arquitetura românica em Portugal e a página do Norte.

Fotografia de Vimacopeca, de outubro de 2026. Original no Wikimedia Commons, sob CC BY-SA 4.0; redimensionada e comprimida para a web, sem alterar a composição.

Perguntas frequentes

Cárquere foi fundado por Egas Moniz?
É o que diz a tradição, ligada à lenda da cura do infante Afonso Henriques. O registo do Património Cultural refere a fundação do convento no século XII por iniciativa de Egas Moniz, mas nota que outras fontes apontam 1099 e o conde D. Henrique. A Rota do Românico trata a atribuição como lenda e data a fundação do segundo quartel do século XII.
O que resta da época românica?
Pouco, segundo a Rota do Românico: a torre, de natureza defensiva e senhorial, que alguns autores datam do fim do século XII ou do XIII, e a fresta da capela dos Resendes, decorada com motivos geométricos no interior e com cabeças de bico (beak-heads) no exterior. A distribuição dos espaços, incluindo o cemitério sobre o antigo claustro, mantém a organização românica.
Faz parte da Rota do Românico?
Sim. A Rota do Românico indica que o Mosteiro de Santa Maria de Cárquere foi integrado na rota em 2010. Na consulta de 5 de novembro de 2026, indicava visita por marcação.
Qual é a classificação?
Monumento Nacional, pelo decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho de 1910, o da primeira lista de monumentos nacionais.

Fontes

  1. Património Cultural, I.P. — Igreja matriz de Cárquere (70582)
  2. Património Cultural, I.P. — Atlas do Património Classificado e em Vias de Classificação (NINV 4331)
  3. Diário do Governo — Decreto de 16 de junho de 1910 (n.º 136, de 23 de junho de 1910)
  4. Rota do Românico — Monastery of Saint Mary of Cárquere
  5. Rota do Românico — Guia: Mosteiro de Santa Maria de Cárquere (n.º 29)
  6. Wikidata — Igreja Matriz de Cárquere (Q10300026)

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