Património Mundial
Primeira Travessia Aérea do Atlântico Sul, 1922 (Memória do Mundo)
Relatórios da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, voo de Gago Coutinho e Sacadura Cabral de Lisboa ao Rio em 1922, na Memória do Mundo.
Em 2011 a UNESCO inscreveu no Registo da Memória do Mundo os relatórios da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada em 1922 por Carlos Viegas Gago Coutinho e Artur de Sacadura Cabral. O que se distingue não é a aeronave — embora o hidroavião Santa Cruz se conserve em Lisboa — mas a documentação manuscrita e impressa que descreve, dia a dia, uma das mais audaciosas empresas da aviação do início do século XX. A par da Carta de Pêro Vaz de Caminha e do Diário da primeira viagem de Vasco da Gama, estes documentos integram o conjunto português reconhecido por testemunharem momentos decisivos da relação histórica entre Portugal e o mundo atlântico.
O voo de Lisboa ao Rio de Janeiro
A 30 de março de 1922, Gago Coutinho e Sacadura Cabral levantaram voo do Tejo, em Belém, a bordo do hidroavião Lusitânia. A viagem, concebida para assinalar o centenário da independência do Brasil, fez-se por etapas: Lisboa, Las Palmas, São Vicente de Cabo Verde, o rochedo de São Pedro e São Paulo, Fernando de Noronha, Recife e, finalmente, o Rio de Janeiro, alcançado a 17 de junho. Ao todo percorreram cerca de 8.383 quilómetros, com mais de sessenta horas de voo efetivo.
A travessia exigiu três aeronaves Fairey. O Lusitânia amarou de emergência junto ao rochedo de São Pedro e São Paulo e ficou inutilizado; a aeronave seguinte, a Pátria, sofreu uma avaria de motor em pleno oceano, obrigando os aviadores a aguardarem socorro no mar. Só com o terceiro aparelho, o Santa Cruz, foi possível concluir a empresa, num episódio que combinou ousadia técnica, perícia e enorme tenacidade.
Uma inovação na navegação aérea
Pela primeira vez, uma travessia oceânica foi orientada apenas por meios próprios, sem auxílio de pontos de referência terrestres ou de apoio externo.
O contributo mais duradouro do voo foi de ordem científica. Gago Coutinho aperfeiçoou um sextante dotado de horizonte artificial, instrumento que permitia medir a altura dos astros mesmo na ausência de uma linha de horizonte estável, condição habitual no voo sobre o mar. Associado a um corretor de rumos, este aparelho tornou possível a navegação astronómica a bordo de uma aeronave, antecipando princípios que viriam a estruturar a aviação transoceânica das décadas seguintes.
O valor documental
Os dois relatórios — um da autoria de Gago Coutinho, outro de Sacadura Cabral — registam observações de navegação, cálculos, condições atmosféricas e o desenrolar de cada etapa. Conservados pela Marinha Portuguesa, no Arquivo Histórico da Marinha e na sua Biblioteca Central, constituem uma fonte de primeira ordem para a história da aeronáutica e das ciências da navegação.
A inscrição na Memória do Mundo reconhece precisamente este caráter documental: não celebra apenas o feito, mas garante a preservação e a divulgação dos testemunhos escritos que o fixaram. Inserido no conjunto do Património Mundial e da memória documental portuguesa, o registo recorda que a aventura de 1922 foi, antes de mais, um exercício rigoroso de método e de registo.
Perguntas frequentes
- O que foi inscrito na Memória do Mundo: o avião ou os documentos?
- Foram inscritos os documentos, e não a aeronave. O registo abrange os dois relatórios redigidos por Gago Coutinho e por Sacadura Cabral sobre o voo de 1922, conservados no Arquivo Histórico da Marinha.
- Quem realizou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul?
- Os oficiais da Marinha portuguesa Gago Coutinho, como navegador, e Sacadura Cabral, como piloto, que partiram de Lisboa a 30 de março de 1922 e chegaram ao Rio de Janeiro a 17 de junho do mesmo ano.
- Porque é que este voo é importante para a navegação aérea?
- Foi a primeira travessia oceânica orientada exclusivamente por meios próprios, recorrendo ao sextante com horizonte artificial concebido por Gago Coutinho, instrumento que permitiu medir a altura dos astros a bordo da aeronave.