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Arqueologia
Abrigo do Lagar Velho
Abrigo do Lagar Velho, no Vale do Lapedo (Leiria): sepultura da Criança do Lapedo, o debate científico sobre a sua leitura, classificação e visita ao CIALV.
- Localização
- Vale do Lapedo, Santa Eufémia e Boa Vista, Leiria, Leiria
- Construção
- Paleolítico Superior (c. 30 000–20 000 anos atrás)
O Abrigo do Lagar Velho é um abrigo sob rocha na margem esquerda da ribeira da Caranguejeira, no Vale do Lapedo, em Santa Eufémia e Boa Vista, concelho de Leiria. É conhecido em todo o mundo pela Criança do Lapedo, uma sepultura infantil descoberta em 1998. Esta página resume o que se sabe do sítio, apresenta o debate científico sobre o esqueleto com as fontes que o suportam e indica como visitar o vale.
O sítio
Segundo o registo do Património Cultural, I.P., o abrigo guarda uma sequência de ocupações do Paleolítico Superior entre cerca de 30 000 e 20 000 anos atrás, com indústrias líticas, restos de fauna e lareiras. Entre cerca de 27 000 e 24 000 anos, grupos de caçadores-recoletores usaram-no repetidamente para se abrigar, caçar e trabalhar a pedra. O registo considera o vale, de morfologia cársica, um geomonumento.
O abrigo foi identificado em novembro de 1998 por membros da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia. O registo indica Pedro Souto e João Maurício e a data de 28 de novembro; um texto de Cidália Duarte publicado pelo Museu Nacional de Arqueologia refere também o estudante Pedro Ferreira e situa a descoberta em dezembro. O local já tinha sido parcialmente destruído por meios mecânicos em 1994. A primeira escavação decorreu entre finais de dezembro de 1998 e janeiro de 1999, dirigida por João Zilhão e Cidália Duarte.
A sepultura
A criança foi depositada numa reentrância da parede do fundo. Segundo o Município de Leiria, o enterramento incluiu uma fossa onde se queimou um ramo de pinheiro-silvestre, uma mortalha tingida com ocre vermelho e ossos de veado junto aos pés. O Museu Nacional de Arqueologia descreve um gorro ornamentado com quatro caninos de veado e um colar com duas conchas de Littorina obtusata. O artigo científico de 1999 estimou a idade à morte em cerca de quatro anos; textos posteriores falam do quinto ano de vida. O registo oficial considera-a a única sepultura humana do Paleolítico Superior conhecida em toda a Península Ibérica.
Há duas datas em circulação. O artigo de 1999 dá cerca de 24 500 anos BP por radiocarbono, com o enterramento entre 24 000 e 25 000 anos BP. O Património Cultural, o Município de Leiria e o Museu Nacional de Arqueologia indicam hoje cerca de 29 000 anos. Não encontrámos, em fonte que tenhamos lido, a explicação da diferença; para citar uma data, consulte a bibliografia do registo.
O que o esqueleto significa: um debate
Em 1999, uma equipa de sete autores, com Cidália Duarte como primeira autora e João Zilhão e Erik Trinkaus entre os restantes, descreveu o esqueleto nos Proceedings of the National Academy of Sciences. Concluiu que mostra um mosaico: o mento e as proporções dos dentes alinham-no com os humanos modernos; as proporções dos membros inferiores, a robustez dos ossos e o recuo da sínfise da mandíbula aproximam-no dos neandertais. Para os autores, isso indicava mistura entre neandertais locais e humanos modernos que avançavam pelo sul da Península. Como o enterramento é vários milénios posterior à transição provável (28 000 a 30 000 anos BP, no artigo), defenderam que a criança vinha de populações extensamente misturadas, e não de um cruzamento raro.
Na mesma edição, Ian Tattersall e Jeffrey Schwartz publicaram um comentário crítico. Descreveram a interpretação como corajosa e imaginativa («brave and imaginative»), mas consideraram improvável que a maioria dos paleoantropólogos a visse como provada: os índices dos membros seriam pouco fiáveis para distinguir populações, os dentes têm morfologia moderna e o contexto é o de um enterramento gravetense típico. Podia tratar-se, escreveram, de uma criança gravetense robusta.
Desde então, a genética mudou o quadro geral. Em 2010, a equipa de Richard Green mostrou que os neandertais partilham mais variantes genéticas com humanos atuais da Eurásia do que com os da África subsaariana, o que indica fluxo genético para os antepassados dos não africanos. O registo do Património Cultural escreve que a hipótese de mistura «viria a confirmar-se» com a sequenciação do genoma neandertal, e o Museu Nacional de Arqueologia diz que a sequenciação «acabaria por confirmar» os traços arcaicos do esqueleto. Convém separar as perguntas: o genoma comprova o cruzamento entre populações, mas esse estudo, tal como o lemos, não testa a morfologia deste esqueleto. Na consulta de 5 de novembro de 2026, não encontrámos ADN antigo da criança publicado em fonte que tenhamos lido.
Classificação e proteção
O Abrigo do Lagar Velho é Monumento Nacional pelo Decreto n.º 17/2013, Diário da República, 1.ª série, n.º 119, de 24 de junho de 2013; a zona especial de proteção foi fixada pela Portaria n.º 630/2013, de 20 de setembro. O Decreto n.º 14/2021, de 7 de junho, classificou o esqueleto e os artefactos associados como bens de interesse nacional com a designação de «tesouro nacional», o primeiro esqueleto assim classificado, segundo o Governo. Em janeiro de 2024, o Governo anunciou 900 000 euros do PRR, contratados com o Município de Leiria, para consolidar a escarpa do abrigo. O sítio não faz parte de nenhuma inscrição da UNESCO.
Preparar a visita
O ponto de acolhimento é o CIALV, Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho, inaugurado em 5 de janeiro de 2008 na Carrasqueira, num terreno sobranceiro ao vale. Expõe os resultados da investigação e uma réplica da criança, feita pelo Politécnico de Leiria; o esqueleto original está em depósito no Museu Nacional de Arqueologia. Na consulta de 5 de novembro de 2026, o município publicava o horário de sexta-feira a domingo e feriados, 9h30–12h30 e 14h00–17h30, com entrada gratuita, e pedia contacto prévio para visitas orientadas: telefone 244 839 677. A página não diz se o abrigo pode ser visitado por conta própria; pergunte antes. Confirme tudo na página municipal do CIALV. Para o contexto paleolítico, veja arte rupestre paleolítica e a Gruta do Escoural.
Fotografia: J iglar, 20 de junho de 2025, Abrigo do Lagar Velho.jpg, licença CC BY-SA 4.0, redimensionada e comprimida para a web, sem alterar a composição.
Perguntas frequentes
- O que é a Criança do Lapedo?
- É o esqueleto de uma criança sepultada no Abrigo do Lagar Velho. O Património Cultural indica cerca de 29 000 anos e descreve-o como a única sepultura humana do Paleolítico Superior conhecida na Península Ibérica.
- A Criança do Lapedo era um híbrido de neandertal e Homo sapiens?
- A equipa que a estudou defendeu, em 1999, que o esqueleto mostra um mosaico de características e indica mistura entre as duas populações. Outros investigadores, na mesma edição da revista, consideraram a interpretação não provada. O tema foi apresentado como controverso desde o início.
- Posso ver o esqueleto original?
- Não em Leiria. Segundo o Município de Leiria, o esqueleto está acondicionado em local que garante a sua preservação e o Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho expõe uma réplica à escala real. O Museu Nacional de Arqueologia é a instituição de conservação permanente.
- Como se visita o Vale do Lapedo?
- Na consulta de 5 de novembro de 2026, o Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho (CIALV) abria de sexta-feira a domingo e feriados, das 9h30 às 12h30 e das 14h00 às 17h30, com entrada gratuita. Para visitas orientadas, o município pede contacto prévio.
Fontes
- Património Cultural, I.P. — Abrigo do Lagar Velho (155684)
- Município de Leiria — CIALV, Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho
- Município de Leiria — Vale do Lapedo
- Museu Nacional de Arqueologia — Decreto n.º 14/2021, classifica Criança do Lapedo como «Tesouro Nacional»
- Museu Nacional de Arqueologia — Leiria aprova protocolo com DGPC para valorizar sítio da criança do Lapedo
- Governo de Portugal — PRR financia conservação do Abrigo do Lagar Velho nos 25 anos da descoberta da Criança do Lapedo (12 de janeiro de 2024)
- Duarte, C. et al. — The early Upper Paleolithic human skeleton from the Abrigo do Lagar Velho (Portugal) and modern human emergence in Iberia. Proceedings of the National Academy of Sciences 96 (13), 1999
- Tattersall, I. e Schwartz, J. H. — Hominids and hybrids: the place of Neanderthals in human evolution. Proceedings of the National Academy of Sciences 96 (13), 1999
- Green, R. E. et al. — A draft sequence of the Neandertal genome. Science 328, 2010
- Atlas do Património Classificado (NINV 69910)
- Wikidata — Abrigo do Lagar Velho (Q3311870)
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