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Arqueologia

Abrigo do Lagar Velho

Abrigo do Lagar Velho, no Vale do Lapedo (Leiria): sepultura da Criança do Lapedo, o debate científico sobre a sua leitura, classificação e visita ao CIALV.

Perguntas frequentes Fontes
Caminho de terra que leva à parede calcária do Abrigo do Lagar Velho, com um painel informativo em primeiro plano e vegetação à volta
J iglar, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons
Localização
Vale do Lapedo, Santa Eufémia e Boa Vista, Leiria, Leiria
Construção
Paleolítico Superior (c. 30 000–20 000 anos atrás)

O Abrigo do Lagar Velho é um abrigo sob rocha na margem esquerda da ribeira da Caranguejeira, no Vale do Lapedo, em Santa Eufémia e Boa Vista, concelho de Leiria. É conhecido em todo o mundo pela Criança do Lapedo, uma sepultura infantil descoberta em 1998. Esta página resume o que se sabe do sítio, apresenta o debate científico sobre o esqueleto com as fontes que o suportam e indica como visitar o vale.

O sítio

Segundo o registo do Património Cultural, I.P., o abrigo guarda uma sequência de ocupações do Paleolítico Superior entre cerca de 30 000 e 20 000 anos atrás, com indústrias líticas, restos de fauna e lareiras. Entre cerca de 27 000 e 24 000 anos, grupos de caçadores-recoletores usaram-no repetidamente para se abrigar, caçar e trabalhar a pedra. O registo considera o vale, de morfologia cársica, um geomonumento.

O abrigo foi identificado em novembro de 1998 por membros da Sociedade Torrejana de Espeleologia e Arqueologia. O registo indica Pedro Souto e João Maurício e a data de 28 de novembro; um texto de Cidália Duarte publicado pelo Museu Nacional de Arqueologia refere também o estudante Pedro Ferreira e situa a descoberta em dezembro. O local já tinha sido parcialmente destruído por meios mecânicos em 1994. A primeira escavação decorreu entre finais de dezembro de 1998 e janeiro de 1999, dirigida por João Zilhão e Cidália Duarte.

A sepultura

A criança foi depositada numa reentrância da parede do fundo. Segundo o Município de Leiria, o enterramento incluiu uma fossa onde se queimou um ramo de pinheiro-silvestre, uma mortalha tingida com ocre vermelho e ossos de veado junto aos pés. O Museu Nacional de Arqueologia descreve um gorro ornamentado com quatro caninos de veado e um colar com duas conchas de Littorina obtusata. O artigo científico de 1999 estimou a idade à morte em cerca de quatro anos; textos posteriores falam do quinto ano de vida. O registo oficial considera-a a única sepultura humana do Paleolítico Superior conhecida em toda a Península Ibérica.

Há duas datas em circulação. O artigo de 1999 dá cerca de 24 500 anos BP por radiocarbono, com o enterramento entre 24 000 e 25 000 anos BP. O Património Cultural, o Município de Leiria e o Museu Nacional de Arqueologia indicam hoje cerca de 29 000 anos. Não encontrámos, em fonte que tenhamos lido, a explicação da diferença; para citar uma data, consulte a bibliografia do registo.

O que o esqueleto significa: um debate

Em 1999, uma equipa de sete autores, com Cidália Duarte como primeira autora e João Zilhão e Erik Trinkaus entre os restantes, descreveu o esqueleto nos Proceedings of the National Academy of Sciences. Concluiu que mostra um mosaico: o mento e as proporções dos dentes alinham-no com os humanos modernos; as proporções dos membros inferiores, a robustez dos ossos e o recuo da sínfise da mandíbula aproximam-no dos neandertais. Para os autores, isso indicava mistura entre neandertais locais e humanos modernos que avançavam pelo sul da Península. Como o enterramento é vários milénios posterior à transição provável (28 000 a 30 000 anos BP, no artigo), defenderam que a criança vinha de populações extensamente misturadas, e não de um cruzamento raro.

Na mesma edição, Ian Tattersall e Jeffrey Schwartz publicaram um comentário crítico. Descreveram a interpretação como corajosa e imaginativa («brave and imaginative»), mas consideraram improvável que a maioria dos paleoantropólogos a visse como provada: os índices dos membros seriam pouco fiáveis para distinguir populações, os dentes têm morfologia moderna e o contexto é o de um enterramento gravetense típico. Podia tratar-se, escreveram, de uma criança gravetense robusta.

Desde então, a genética mudou o quadro geral. Em 2010, a equipa de Richard Green mostrou que os neandertais partilham mais variantes genéticas com humanos atuais da Eurásia do que com os da África subsaariana, o que indica fluxo genético para os antepassados dos não africanos. O registo do Património Cultural escreve que a hipótese de mistura «viria a confirmar-se» com a sequenciação do genoma neandertal, e o Museu Nacional de Arqueologia diz que a sequenciação «acabaria por confirmar» os traços arcaicos do esqueleto. Convém separar as perguntas: o genoma comprova o cruzamento entre populações, mas esse estudo, tal como o lemos, não testa a morfologia deste esqueleto. Na consulta de 5 de novembro de 2026, não encontrámos ADN antigo da criança publicado em fonte que tenhamos lido.

Classificação e proteção

O Abrigo do Lagar Velho é Monumento Nacional pelo Decreto n.º 17/2013, Diário da República, 1.ª série, n.º 119, de 24 de junho de 2013; a zona especial de proteção foi fixada pela Portaria n.º 630/2013, de 20 de setembro. O Decreto n.º 14/2021, de 7 de junho, classificou o esqueleto e os artefactos associados como bens de interesse nacional com a designação de «tesouro nacional», o primeiro esqueleto assim classificado, segundo o Governo. Em janeiro de 2024, o Governo anunciou 900 000 euros do PRR, contratados com o Município de Leiria, para consolidar a escarpa do abrigo. O sítio não faz parte de nenhuma inscrição da UNESCO.

Preparar a visita

O ponto de acolhimento é o CIALV, Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho, inaugurado em 5 de janeiro de 2008 na Carrasqueira, num terreno sobranceiro ao vale. Expõe os resultados da investigação e uma réplica da criança, feita pelo Politécnico de Leiria; o esqueleto original está em depósito no Museu Nacional de Arqueologia. Na consulta de 5 de novembro de 2026, o município publicava o horário de sexta-feira a domingo e feriados, 9h30–12h30 e 14h00–17h30, com entrada gratuita, e pedia contacto prévio para visitas orientadas: telefone 244 839 677. A página não diz se o abrigo pode ser visitado por conta própria; pergunte antes. Confirme tudo na página municipal do CIALV. Para o contexto paleolítico, veja arte rupestre paleolítica e a Gruta do Escoural.

Fotografia: J iglar, 20 de junho de 2025, Abrigo do Lagar Velho.jpg, licença CC BY-SA 4.0, redimensionada e comprimida para a web, sem alterar a composição.

Perguntas frequentes

O que é a Criança do Lapedo?
É o esqueleto de uma criança sepultada no Abrigo do Lagar Velho. O Património Cultural indica cerca de 29 000 anos e descreve-o como a única sepultura humana do Paleolítico Superior conhecida na Península Ibérica.
A Criança do Lapedo era um híbrido de neandertal e Homo sapiens?
A equipa que a estudou defendeu, em 1999, que o esqueleto mostra um mosaico de características e indica mistura entre as duas populações. Outros investigadores, na mesma edição da revista, consideraram a interpretação não provada. O tema foi apresentado como controverso desde o início.
Posso ver o esqueleto original?
Não em Leiria. Segundo o Município de Leiria, o esqueleto está acondicionado em local que garante a sua preservação e o Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho expõe uma réplica à escala real. O Museu Nacional de Arqueologia é a instituição de conservação permanente.
Como se visita o Vale do Lapedo?
Na consulta de 5 de novembro de 2026, o Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho (CIALV) abria de sexta-feira a domingo e feriados, das 9h30 às 12h30 e das 14h00 às 17h30, com entrada gratuita. Para visitas orientadas, o município pede contacto prévio.

Fontes

  1. Património Cultural, I.P. — Abrigo do Lagar Velho (155684)
  2. Município de Leiria — CIALV, Centro de Interpretação do Abrigo do Lagar Velho
  3. Município de Leiria — Vale do Lapedo
  4. Museu Nacional de Arqueologia — Decreto n.º 14/2021, classifica Criança do Lapedo como «Tesouro Nacional»
  5. Museu Nacional de Arqueologia — Leiria aprova protocolo com DGPC para valorizar sítio da criança do Lapedo
  6. Governo de Portugal — PRR financia conservação do Abrigo do Lagar Velho nos 25 anos da descoberta da Criança do Lapedo (12 de janeiro de 2024)
  7. Duarte, C. et al. — The early Upper Paleolithic human skeleton from the Abrigo do Lagar Velho (Portugal) and modern human emergence in Iberia. Proceedings of the National Academy of Sciences 96 (13), 1999
  8. Tattersall, I. e Schwartz, J. H. — Hominids and hybrids: the place of Neanderthals in human evolution. Proceedings of the National Academy of Sciences 96 (13), 1999
  9. Green, R. E. et al. — A draft sequence of the Neandertal genome. Science 328, 2010
  10. Atlas do Património Classificado (NINV 69910)
  11. Wikidata — Abrigo do Lagar Velho (Q3311870)

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