Patrimónios Estudos sobre o património cultural português

Arqueologia

Concheiros de Muge

Concheiros de Muge, em Salvaterra de Magos: montes de conchas mesolíticos com centenas de enterramentos, descobertos em 1863 e Monumento Nacional desde 2011.

Perguntas frequentes Fontes
Localização
Muge, Salvaterra de Magos, Santarém
Construção
Mesolítico (ocupação iniciada há cerca de 8000 anos)

Os Concheiros de Muge são um dos sítios mais citados da pré-história europeia, embora quase nada se veja à superfície. Nos vales das ribeiras da margem esquerda do Tejo, no concelho de Salvaterra de Magos e distrito de Santarém, comunidades de caçadores-recoletores do Mesolítico acumularam durante séculos as conchas dos moluscos que comiam, juntamente com ossos de animais, utensílios, cinzas e os corpos dos seus mortos. O resultado foram colinas artificiais que, segundo o registo nacional, chegam a ter cinco metros de altura. Três delas, a Moita do Sebastião, o Cabeço da Amoreira e o Cabeço da Arruda, são hoje Monumento Nacional.

Um estuário que já não existe

A paisagem atual de lezírias e arrozais engana. O Muge Portal, da equipa de investigação do ICArEHB (Universidade do Algarve), explica que os concheiros estão hoje a cerca de 60 quilómetros a montante do estuário do Tejo. No fim da última glaciação, porém, a subida do nível do mar formou um vasto estuário interior que, no seu máximo, cobria perto de 1300 km². Foi nesse cenário que, há cerca de 8000 anos, grupos de caçadores-recoletores se instalaram junto às ribeiras então inundadas por águas salobras. O assoreamento posterior deu origem às planícies aluviais que hoje se conhecem.

O que guarda um concheiro

Um concheiro não é apenas uma lixeira de conchas. O registo nacional descreve depósitos formados pelos excedentes da vida quotidiana ao longo de muito tempo. Os materiais são sobretudo microlíticos: lamelas e peças geométricas que serviam para compor armas e instrumentos de caça e de pesca. A cerâmica é escassa. Os mortos eram sepultados entre esses resíduos, no próprio monte.

A investigação recente acrescenta pormenor. No Cabeço da Amoreira, a corvina domina os restos de peixe, e a análise dos otólitos aponta para capturas na estação quente. Entre os moluscos predominam a lambujinha e o berbigão. Veado, javali, auroque e coelho eram as principais presas, e o cão já acompanhava estas comunidades. As análises de isótopos de estrôncio nos dentes indicam populações sobretudo locais, de mobilidade reduzida. O portal sublinha, ainda assim, que a componente vegetal da dieta continua mal documentada.

Porque são tão importantes

O decreto de classificação de 2011 afirma que os Concheiros de Muge são «citados em todos os manuais de pré-história da Europa». Há duas razões principais. A primeira é a antiguidade da investigação: o sítio foi escavado de forma científica desde a década de 1860, antes de o próprio conceito de Mesolítico estar estabelecido. A segunda é o número de sepulturas. O Muge Portal contabiliza mais de 300 enterramentos humanos, que descreve como um dos maiores conjuntos do Mesolítico europeu. Ossos, dentes e contextos funerários permitem estudar dieta, saúde, mobilidade e rituais daqueles a quem o portal chama os últimos caçadores-recoletores do vale do Tejo. Para as primeiras sociedades agrícolas, continue em Neolítico.

Mais de 160 anos de escavações

Segundo o Muge Portal, Carlos Ribeiro identificou os primeiros concheiros em abril de 1863, durante os trabalhos da Comissão Geológica para a Carta Geológica de Portugal. Ribeiro dirigiu as primeiras escavações no Cabeço da Arruda em 1864–1865. A memória de 1865 de Francisco Pereira da Costa sobre os esqueletos ali encontrados é apresentada pelo portal como a primeira publicação científica dedicada a um sítio pré-histórico em Portugal.

Em 1880, os participantes do Congresso Internacional de Antropologia e Arqueologia Pré-históricas, reunido em Lisboa, visitaram os concheiros. O registo nacional nota que os enterramentos entre os resíduos foram o que mais curiosidade despertou nessa visita. Seguiram-se as escavações de Francisco de Paula e Oliveira no Cabeço da Arruda e na Moita do Sebastião. Entre 1930 e 1937, o antropólogo António Mendes Correia, da Universidade do Porto, escavou o Cabeço da Amoreira e o Cabeço da Arruda; os materiais dessas campanhas estão nessa universidade.

A Moita do Sebastião foi quase totalmente destruída em abril de 1952, durante a construção de um complexo agrícola para o tratamento de arroz. Jean Roche e Octávio da Veiga Ferreira escavaram o que restava entre 1952 e 1954 e identificaram a base de uma cabana, fossas e estruturas de combustão. A mesma equipa voltou ao Cabeço da Amoreira em 1962–1965 e encontrou novos enterramentos na base do concheiro. Por volta de 1998–2003, José Manuel Rolão retomou o trabalho no Cabeço da Amoreira e no Cabeço da Arruda. Desde 2008, a equipa do ICArEHB escava o Cabeço da Amoreira. As datações por radiocarbono definem aí cinco fases principais de deposição, entre há cerca de 8000 e 7400 anos.

Para situar Muge na sequência longa da pré-história, veja também Paleolítico, arte pré-histórica em Portugal e o panorama da arqueologia portuguesa.

Proteção

Os Concheiros de Muge — Moita do Sebastião, Cabeço da Amoreira e Cabeço da Arruda são Monumento Nacional pelo Decreto n.º 16/2011, publicado a 25 de maio de 2011, na freguesia de Muge. O processo começou com uma proposta de José Arnaud em 2000, segundo o registo do Património Cultural, I.P. A zona especial de proteção, que inclui uma zona non aedificandi, foi fixada pela Portaria n.º 457/2012, de 18 de setembro, retificada pela Declaração de retificação n.º 13/2013. No Atlas do Património Cultural, cada um dos três concheiros aparece como uma área própria, integrada no conjunto classificado. Os concheiros não fazem parte de nenhuma inscrição da UNESCO.

As coordenadas desta página são as do registo nacional e do Wikidata, e correspondem à área da Moita do Sebastião. Pelas delimitações do Atlas, o Cabeço da Amoreira e o Cabeço da Arruda ficam a menos de 2 km dessa área.

Preparar a visita

Não espere encontrar um sítio arqueológico visitável. O Muge Portal informa que os concheiros estão em propriedade privada e não são de acesso livre. A notícia do ICArEHB sobre a inauguração do centro de interpretação acrescenta que estão cobertos por camadas de terra e são, por isso, pouco visíveis.

A forma de os conhecer é o Centro de Interpretação dos Concheiros de Muge, aberto a 13 de setembro de 2025 na Casa do Povo de Muge (Estrada Nacional 118, n.º 5, 2125-317 Muge). Resulta de uma parceria entre o ICArEHB, a Universidade do Algarve e o Município de Salvaterra de Magos. A exposição trata as práticas funerárias, os adornos, a indústria lítica e a alimentação destas comunidades, e inclui um corte estratigráfico de concheiro e um esqueleto do Cabeço da Amoreira. O portal indica também a Casa Cadaval como ponto de partida para conhecer os concheiros.

Na consulta de 5 de novembro de 2026, o portal indicava o seguinte horário: terça a sexta, 9h00–12h30 e 13h30–17h00, mediante marcação prévia por telefone ou email. Indicava ainda abertura aos sábados e domingos, das 14h30 às 16h30, apenas durante o mês de março, e encerramento à segunda-feira. Confirme horário e marcação pelo telefone 263 509 520 ou na página de visita do Muge Portal.

Perguntas frequentes

O que são os Concheiros de Muge?
São grandes montes artificiais formados pela acumulação das conchas dos moluscos consumidos por comunidades de caçadores-recoletores do Mesolítico, junto às ribeiras da margem esquerda do Tejo, no concelho de Salvaterra de Magos. Além das conchas, guardam restos de fauna, utensílios de pedra, estruturas de habitação e sepulturas.
Quem os descobriu e quando?
Carlos Ribeiro identificou os primeiros concheiros em abril de 1863, durante os trabalhos da Comissão Geológica para a Carta Geológica de Portugal. As primeiras escavações, no Cabeço da Arruda, seguiram-se em 1864–1865.
Estão classificados?
Sim. Os concheiros da Moita do Sebastião, do Cabeço da Amoreira e do Cabeço da Arruda são Monumento Nacional pelo Decreto n.º 16/2011, de 25 de maio. A zona especial de proteção foi fixada pela Portaria n.º 457/2012, de 18 de setembro. Não fazem parte de nenhuma inscrição da UNESCO.
Podem visitar-se?
Os concheiros estão em propriedade privada e não são de acesso livre. A porta de entrada para os conhecer é o Centro de Interpretação dos Concheiros de Muge, na Casa do Povo de Muge, aberto em setembro de 2025; na consulta de 5 de novembro de 2026, as visitas faziam-se mediante marcação prévia.

Fontes

  1. Património Cultural, I.P. — Concheiros de Muge (342923)
  2. Património Cultural, I.P. — Atlas do Património Classificado e em Vias de Classificação (NINV 72452)
  3. Diário da República — Decreto n.º 16/2011, de 25 de maio
  4. ICArEHB / Universidade do Algarve — Muge Portal: Os Concheiros
  5. ICArEHB / Universidade do Algarve — Muge Portal: Visitar
  6. ICArEHB / Universidade do Algarve — Muge Portal (página inicial)
  7. ICArEHB — Muge Shell Middens gain new Interpretation Centre (15-09-2025)
  8. Wikidata — Concheiros de Muge (Q15047295)

Continue a explorar

Património por perto

Outros lugares para descobrir a partir daqui. Distâncias aproximadas em linha reta, até 50 km.

Explorar o atlas