Patrimónios Estudos sobre o património cultural português

Monumentos

Igreja de Gândara

Igreja de Gândara (Cabeça Santa), em Penafiel: templo românico do século XIII ligado a Cedofeita, com capitéis de acrobata e dragões; Monumento Nacional.

Perguntas frequentes Fontes
Vista aérea da Igreja de Gândara, em Cabeça Santa, com a fachada de granito, o portal de arquivoltas, a fresta e o telhado de duas águas
Vimacopeca, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons
Localização
Cabeça Santa, Penafiel, Porto
Construção
Século XIII (primeiras décadas, segundo a Rota do Românico); capela do Rosário dos séculos XVI-XVII; restauro da DGEMN de 1936-1950

A Igreja de Gândara, também conhecida como Igreja do Salvador de Cabeça Santa, fica no Largo Padre Carlos Pereira Soares, na freguesia de Cabeça Santa, no concelho de Penafiel. É Monumento Nacional e um dos monumentos da Rota do Românico. O edifício é um exemplo de igreja românica de nave única e cabeceira retangular, mas o que lhe dá interesse é a escultura dos portais e do arco triunfal, que aproxima esta igreja rural do Baixo Tâmega de Cedofeita, no Porto.

Dois nomes para o mesmo templo

O registo do Património Cultural, I.P. dá como designação oficial «Igreja de Gândara» e lista como outras designações Igreja do Salvador de Cabeça Santa e Igreja do Divino Salvador. O Atlas do Património Classificado regista ainda a variante «Igreja de São Miguel da Gândara», que não bate com as outras fontes: a Rota do Românico e a monografia que publica dão sempre como orago o Salvador, e a festa do padroeiro, na página da Rota, é a do Divino Salvador, a 6 de agosto.

Segundo essa monografia, as Inquirições de 1258 já referem a igreja como São Salvador da Gândara, nome mantido até ao século XVII. Só então começa a aparecer a designação Cabeça Santa, por referência a um crânio guardado em relicário de prata, exposto num altar da nave e muito procurado por peregrinos, que o invocavam contra várias doenças e contra a mordedura de cães raivosos. A monografia acrescenta que nunca se soube a quem pertencera a relíquia e que, em 1758, ela ainda se conservava na igreja, hoje sem vestígio material dela.

Uma igreja do século XIII

O registo atribui a fundação à rainha Santa Mafalda, filha de D. Sancho I, por volta do segundo quartel do século XIII, e descreve o templo como uma cópia mais modesta de Cedofeita. A Rota do Românico data-o da primeira metade do século XIII e a sua monografia deduz as primeiras décadas desse século a partir das influências da Sé do Porto e de Cedofeita. Fala também de uma edificação original, entretanto desaparecida, dos séculos X-XI. Estas datas resultam de comparação estilística, não de inscrição.

A planta é a mais comum do românico português: uma nave e uma cabeceira retangular, ambas cobertas por telhado de madeira, solução habitual em Entre-Douro-e-Minho. O registo nota que a cobertura de madeira contraria o abobadamento integral de Cedofeita e que isso tem sido atribuído a uma redução do plano original ou a uma simplificação desde o início da obra. Para o enquadramento do estilo, veja a arquitetura românica em Portugal e a página da Igreja de São Martinho de Cedofeita; a influência portuense de Cedofeita explica-se, segundo a monografia, pelos contactos entre o Porto e o porto francês de La Rochelle.

Escultura dos portais

Há três portais. No portal principal, voltado a poente, o tímpano assenta em cabeças de bovídeos, que a Rota interpreta como proteção simbólica da entrada, e os capitéis têm aves afrontadas; num deles, uma figura deitada é agarrada pela boca de um animal, ideia do homem preso pelo pecado. No portal sul está o capitel que mais se cita, com um acrobata de corpo arqueado, que o registo considera uma das melhores obras escultóricas do românico nortenho, e um outro com dois dragões de corpo de ave, praticamente idêntico a um capitel do portal principal de Cedofeita. O registo vê duas fases construtivas possíveis, com artistas vindos de Cedofeita e depois mão de obra de origens diversas, e nota a influência do talhe em bisel do vizinho Mosteiro de Paço de Sousa. No interior, os capitéis do arco triunfal repetem modelos de Cedofeita.

Na fachada sul há mísulas e um lacrimal que indicam a existência de um alpendre de uma água. No adro, num afloramento granítico, há três sepulturas escavadas na rocha e, encostados ao muro sul, três sarcófagos medievais com tampa. O registo refere sepulturas antropomórficas atrás do templo, anteriores ao edifício do século XIII.

A capela do Rosário e o restauro

Da época moderna resta a Capela de Nossa Senhora do Rosário, no lado norte, espaço retangular que em 1758 era a Capela do Santíssimo Sacramento. Combina talha dourada de estilo nacional, azulejos de padrão de meados do século XVII e uma imagem de Nossa Senhora com o Menino, também do século XVII. A DGEMN quis demoli-la, mas manteve-a como testemunho do esforço construtivo local. O registo descreve-a como revestida de talha e azulejos barrocos; sobre a talha, veja a talha dourada.

O restauro da DGEMN decorreu entre 1936 e 1950, com os arquitetos Rogério de Azevedo e Joaquim Areal, e procurou repor a traça primitiva: retirou os altares modernos e o coro e removeu o altar-mor, enviado para São Vicente de Irivo. Por isso o interior é hoje quase despido, e a monografia lembra que as igrejas medievais não eram assim, pois tinham cor, altares e mobiliário. A torre sineira foi desmontada e reconstruída junto ao limite do adro. Segundo a Rota, a igreja entrou na Rota do Românico do Vale do Sousa em 1998, houve obras de conservação em 2003-2004 e em 2013-2014, e em 2026 estão indicados trabalhos de conservação da talha dourada da capela lateral.

Classificação

É Monumento Nacional pelo Decreto n.º 14 425, publicado no Diário do Governo, I série, n.º 228, de 15 de outubro de 1927. A zona de proteção, com zona non aedificandi, foi fixada pela Portaria de 6 de julho de 1951 (Diário do Governo, II série, n.º 188, de 15 de agosto de 1951). O texto do decreto é uma digitalização de imagem que não conseguimos transcrever. A igreja não integra nenhuma inscrição da UNESCO.

Preparar a visita

Na consulta de 5 de novembro de 2026, a página da Rota do Românico indicava visita por marcação (telefones +351 255 810 706 e +351 918 116 488; correio [email protected]), missa ao domingo às 8h30 e acessibilidade total ou parcial para pessoas com mobilidade reduzida. A página não indicava preço. Estes dados podem mudar: confirme-os na página oficial do monumento antes de se deslocar. Para o resto da região, veja a página do Norte e, na mesma rota, a Igreja de São Gens de Boelhe.

Fotografia de Vimacopeca, de 14 de setembro de 2020. Original no Wikimedia Commons, sob CC BY-SA 4.0; redimensionada e comprimida para a web, sem alterar a composição.

Perguntas frequentes

Gândara ou Cabeça Santa: qual é o nome certo?
Os dois. O registo oficial designa o monumento «Igreja de Gândara». A Rota do Românico chama-lhe Igreja do Salvador de Cabeça Santa e explica que nas Inquirições de 1258 a igreja já surge como São Salvador da Gândara, nome que manteve até ao século XVII, quando passou a ser conhecida também como Cabeça Santa, por causa de um crânio guardado em relicário de prata.
Porque se compara esta igreja a Cedofeita?
Porque os capitéis do arco triunfal e dos portais são muito semelhantes aos da Igreja de São Martinho de Cedofeita, no Porto. O registo do Património Cultural nota um capitel do portal sul quase idêntico a outro do portal principal de Cedofeita e refere que alguns autores admitem que os mesmos artistas trabalharam nos dois templos.
Faz parte da Rota do Românico?
Sim. Na consulta de 5 de novembro de 2026, o sítio da Rota do Românico incluía a Igreja do Salvador de Cabeça Santa entre os seus monumentos e indicava visita por marcação.
Qual é a classificação?
Monumento Nacional, pelo Decreto n.º 14 425, publicado no Diário do Governo, I série, n.º 228, de 15 de outubro de 1927. A zona de proteção foi fixada pela Portaria de 6 de julho de 1951.

Fontes

  1. Património Cultural, I.P. — Igreja de Gândara (70702)
  2. Património Cultural, I.P. — Atlas do Património Classificado e em Vias de Classificação (NINV 3689)
  3. Diário do Governo — Decreto n.º 14 425, de 15 de outubro de 1927 (I série, n.º 228)
  4. Rota do Românico — Church of the Saviour of Cabeça Santa
  5. Rota do Românico — Igreja do Salvador de Cabeça Santa (monografia)
  6. Wikidata — Igreja do Salvador de Cabeça Santa (Q10300932)

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