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Arqueologia
Vila Velha de Santa Cruz da Vilariça
Vila Velha de Santa Cruz da Vilariça, em Torre de Moncorvo: ruínas muralhadas de uma vila medieval com foral de 1225, abandonada por volta de 1300.
- Localização
- Adeganha, Torre de Moncorvo, Bragança
- Construção
- Vila nova de fundação régia (povoamento iniciado no tempo de D. Sancho I; foral de 1225); abandonada na passagem do séc. XIII para o XIV
A Vila Velha de Santa Cruz da Vilariça, também chamada Derruída, é uma vila medieval abandonada. As ruínas ficam no cimo de uma colina sobranceira ao rio Sabor e à ribeira da Vilariça, na freguesia de Adeganha e Cardanha, concelho de Torre de Moncorvo, distrito de Bragança. Durante algumas décadas do século XIII foi a sede de um concelho que abrangia todo o vale da Vilariça. Depois foi esvaziada em favor de vilas novas, entre elas Torre de Moncorvo. O que resta, uma cerca de muralha com casas, ruas e uma igreja em ruínas, é hoje um sítio arqueológico classificado como Monumento Nacional.
Uma vila nova de fundação régia
Paulo Dordio, num estudo sobre as vilas medievais do Alto Douro, descreve Santa Cruz como uma vila nova de fundação régia, criada por iniciativa de D. Sancho I. A melhor prova vem das Inquirições de D. Afonso III, de 1258. Segundo esse testemunho, quando se quis povoar Santa Cruz, no tempo do avô do rei, a Coroa deu à Ordem do Hospital uma herdade em Samões em troca da herdade onde ficava a vila. As mesmas inquirições dizem que os povoadores vieram de aldeias reguengas do norte, hoje no concelho de Macedo de Cavaleiros, levados por um mordomo do rei chamado Aparício. Dordio admite que esse povoamento tenha ocorrido entre 1211 e 1217.
A vila recebeu carta de foral de D. Sancho II em 1225. O seu termo era enorme e cobria todo o vale da Vilariça, com muitas outras comunidades. Para Dordio, a fundação mostra a tentativa de aplicar no Alto Douro o modelo das vilas novas de Trás-os-Montes, que Sancho I tinha inaugurado em Bragança, com termos do tamanho das antigas «terras».
O que se vê no terreno
O registo nacional do Património Cultural, I.P. descreve uma antiga sede concelhia bem integrada na topografia. É delimitada por uma muralha imponente, reforçada a leste por duas muralhas exteriores. Uma Rua Direita levava ao largo principal, onde estava a igreja, de que resta um dos alçados, perto de sepulturas escavadas nos afloramentos.
Dordio acrescenta pormenores. A cerca, de alvenaria de xisto, rodeava a coroa da colina e tinha uma única entrada, a noroeste, ladeada por duas torres tronco-cónicas maciças. No interior, numa área de cerca de 1,2 hectares, veem-se vestígios de casas e arruamentos. No topo ficam as ruínas da igreja, com um pequeno adro e uma torre arruinada. A colina não é muito alta, mas destaca-se na paisagem e domina as terras planas e férteis do vale.
Do apogeu ao abandono
Na década de 1280, D. Dinis reorganizou a região. Esteve na vila de Santa Cruz em finais de novembro de 1281. Em seguida, dividiu o termo da vila, que parecia excessivo, por três vilas novas: Torre de Moncorvo, Vila Flor e Alfândega da Fé. Segundo Dordio, Torre de Moncorvo era em meados do século XIII apenas uma aldeia do termo de Santa Cruz. Muito provavelmente em 1285, D. Dinis deu-lhe um foral que transcreve o de 1225 e atribuiu-lhe o termo da vila velha. O foral de Vila Flor, de 1286, também retoma o «foro da Santa Cruz da Vilariça».
Santa Cruz ficou abandonada na passagem do século XIII para o XIV. Em meados do século XV só restavam as ruínas e a memória. Um documento citado por Dordio diz que ali houvera povoação noutro tempo, mas que, por ser lugar «doentijo», os moradores se mudaram para a vila da Torre, e que ficara «o cerco deribado e destroido de todo».
O Município de Torre de Moncorvo, na sua página sobre o património arqueológico, apresenta a vila velha como antecessora de Moncorvo. Cita J. R. Santos Júnior, autor de um estudo intitulado «A Derruída ou Vila Velha de Santa Cruz da Vilariça», para quem os habitantes, acossados pelas febres palustres, deixaram a Vilariça por volta do fim do século XII. Essa data não se ajusta ao foral de 1225 nem à visita de D. Dinis em 1281, e Dordio situa o abandono na passagem do século XIII para o XIV. A explicação das febres concorda, ainda assim, com o «doentijo» do documento do século XV.
Classificação e proteção
O sítio é Monumento Nacional com a designação «Muralhas e ruínas de Vila Velha de Santa Cruz ou Derruída». Foi classificado pelo Decreto n.º 26-A/92, de 1 de junho, publicado no Diário da República, I Série-B, n.º 126, de 1 de junho de 1992. O preâmbulo explica que o diploma se destina à classificação de imóveis arqueológicos. O mesmo decreto classificou como imóvel de interesse público o Povoado de Baldoeiro, também na Adeganha.
O registo nacional indica que o sítio está abrangido pela zona de proteção do Alto Douro Vinhateiro. Isso não o torna parte do bem inscrito pela UNESCO na Lista do Património Mundial; ver Alto Douro Vinhateiro. Uma zona especial de proteção própria recebeu parecer favorável do Conselho Consultivo do IGESPAR em 23 de abril de 2008, mas o registo avisa que só entra em vigor depois de publicada no Diário da República. Na consulta de 5 de novembro de 2026, o registo não indicava essa publicação.
Um sítio arqueológico medieval
Santa Cruz não conserva um castelo. O que chegou até nós é uma povoação medieval abandonada, com cerca, ruas, casas, igreja e sepulturas. O decreto de 1992 classificou-a no âmbito dos imóveis arqueológicos, e o município apresenta-a na secção de património arqueológico, ao lado dos achados do vale da Vilariça estudados pelo Projeto Arqueológico da Região de Moncorvo (PARM). É por isso um bom exemplo de arqueologia em Portugal.
Preparar a visita
Na consulta de 5 de novembro de 2026, não foi encontrada informação oficial sobre acesso, percursos sinalizados ou visitas guiadas ao sítio. As ruínas ficam em campo aberto, no alto de uma colina. O município sugere visitar o Museu do Ferro & da Região de Moncorvo, em Torre de Moncorvo, para conhecer a arqueologia do concelho. Antes de ir, contacte o Município de Torre de Moncorvo ([email protected]).
Para continuar pela região, veja os castelos de Portugal, em especial o Castelo de Freixo de Espada à Cinta, ou o roteiro do Norte de Portugal.
Perguntas frequentes
- O que é a Vila Velha de Santa Cruz da Vilariça?
- São as ruínas de uma vila medieval no topo de uma colina sobre o vale da Vilariça, no concelho de Torre de Moncorvo. Foi sede de concelho, com foral de D. Sancho II de 1225, e ficou abandonada na passagem do século XIII para o XIV. Conservam-se a cerca, vestígios de casas e ruas e restos da igreja.
- Qual a relação com Torre de Moncorvo?
- Torre de Moncorvo era, em meados do século XIII, uma aldeia do termo de Santa Cruz. Na década de 1280, D. Dinis reorganizou o território e, muito provavelmente em 1285, deu a Torre de Moncorvo um foral que transcreve o de Santa Cruz, atribuindo-lhe o termo da vila velha.
- Está classificada?
- Sim. As «Muralhas e ruínas de Vila Velha de Santa Cruz ou Derruída» são Monumento Nacional pelo Decreto n.º 26-A/92, publicado no Diário da República, I Série-B, n.º 126, de 1 de junho de 1992, um diploma dedicado à classificação de imóveis arqueológicos.
- Faz parte do Alto Douro Vinhateiro?
- O registo nacional indica que o sítio está abrangido pela zona de proteção do Alto Douro Vinhateiro. Isso não significa que faça parte do bem inscrito na Lista do Património Mundial.
Fontes
- Património Cultural, I.P. — Muralhas e ruínas de Vila Velha de Santa Cruz ou Derruída (70572)
- Património Cultural, I.P. — Atlas do Património Classificado, Muralhas e ruínas de Vila Velha de Santa Cruz ou Derruída (NINV 2010)
- Diário da República — Decreto n.º 26-A/92 (I Série-B, n.º 126, 01-06-1992)
- Paulo Dordio — Centros de povoamento: um percurso pelas vilas medievais (cap. I)
- Município de Torre de Moncorvo — Património arqueológico
- Wikidata — Muralhas e ruínas de Vila Velha de Santa Cruz ou Derruída (Q66813511)
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