Patrimónios Estudos sobre o património cultural português

Monumentos

Mosteiro de Lorvão

Mosteiro de Lorvão, em Penacova: origens do século IX, monjas de Cister desde c. 1200, igreja de 1748–1761, cadeiral, Apocalipse do Lorvão e classificação.

Perguntas frequentes Fontes
Pátio fronteiro do Mosteiro de Lorvão, com as alas conventuais caiadas, dois portais de cantaria e a cúpula da igreja ao fundo
Pedro from Maia (Porto), Portugal, CC BY 2.0 — Wikimedia Commons
Localização
Lorvão, Penacova, Coimbra
Construção
Referências desde 878; igreja atual 1748–1761

O Mosteiro de Lorvão ocupa um vale junto à ribeira de Lorvão, no concelho de Penacova, a nordeste de Coimbra. Por fora, vê-se sobretudo um grande conjunto barroco de alas caiadas e uma igreja com cúpula. A história do lugar é, porém, muito mais antiga: foi mosteiro masculino durante séculos, tornou-se uma casa feminina da Ordem de Cister que, segundo o Governo, chegou a ter mais de 300 monjas e produziu um dos manuscritos iluminados mais conhecidos da Península Ibérica.

Das origens ao mosteiro feminino

A fundação de Lorvão foi recuada pela tradição até ao século VI, quando surge referida uma paróquia de «Lurbane». O registo nacional do património lembra que existe no local uma pedra com ornato visigótico e vestígios de uma villa romana, mas considera mais correto, à luz da historiografia atual, situar a fundação depois da primeira reconquista cristã de Coimbra, em 878, data a partir da qual surgem as primeiras referências documentais conhecidas.

No século X, o mosteiro já tinha importância considerável; o século XI trouxe um período de decadência. Depois de uma fase inicial sem regra fixa, a comunidade adotou a Regra de São Bento em meados do século XI. Por volta de 1180, segundo o mesmo registo, terá havido obras importantes, de que resultaram muito possivelmente um novo claustro e uma igreja de três naves. Dessa campanha românica restam apenas capitéis.

A grande viragem deu-se por volta de 1200. O mosteiro passou para Cister e tornou-se feminino, com a invocação de Santa Maria. A mudança deve-se a D. Teresa, filha de D. Sancho I, que aí viveu até morrer, em 1250. O registo nacional data a passagem de 1200; um comunicado do Governo de 2018 indica 1206. D. Teresa está sepultada na igreja com a irmã, D. Sancha, em urnas executadas em 1714 pelo ourives portuense Manuel Carneiro da Silva. Os túmulos das duas infantas fazem parte do nome oficial do monumento classificado.

O scriptorium: o Apocalipse do Lorvão

O mosteiro masculino teve um scriptorium ativo. A obra mais célebre que dele saiu é o Apocalipse do Lorvão, um códice em pergaminho com 221 fólios, copiado em 1189 a partir do comentário ao Apocalipse de Beato de Liébana, autor do século VIII. A descrição do Arquivo Nacional, divulgada pela Europeana, indica que o manuscrito veio do mosteiro de São Mamede de Lorvão e foi levado por Alexandre Herculano para a Torre do Tombo, em Lisboa, onde se conserva.

Em 2015, o códice passou a integrar a inscrição conjunta de Portugal e Espanha no registo Memória do Mundo da UNESCO, dedicada aos manuscritos do comentário ao Apocalipse de Beato de Liébana. A inscrição abrange o manuscrito, não o edifício: quem visita Lorvão não encontra lá o original.

Bases de dados especializadas em bestiários medievais atribuem ao mesmo scriptorium um livro das aves, cópia do De avibus de Hugo de Fouilloy, datado de cerca de 1184 e hoje também na Torre do Tombo (MS. 90). Não conseguimos confirmar estes dados numa ficha do próprio arquivo, pelo que devem ser verificados junto do custodiante. A técnica destas obras é tratada em encadernação e iluminura.

A renovação dos séculos XVI a XVIII

O aspeto atual resulta de obras feitas ao longo de quase dois séculos. Segundo o registo nacional, a atualização começou nos últimos anos do século XVI pelo claustro, de linguagem renascentista, com várias capelas. Em 1677 acrescentaram-se as varandas do claustro, já próximas do barroco. A portaria data de 1630 e integra o novo edifício iniciado na década de 1620.

O ciclo barroco foi o que mais marcou o conjunto. Está ligado ao culto oficial das «Santas Rainhas» D. Teresa e D. Sancha, cujo processo terminou em 1724. Primeiro renovou-se o retábulo-mor e a talha dourada cobriu o interior da igreja. Em 1728 construiu-se a nova noviciaria. Uma década depois iniciou-se nova remodelação: entre 1748 e 1761, a igreja foi reconstruída com um traçado em que a historiografia reconhece a influência de Mafra.

No interior, o destaque é o cadeiral do coro baixo, feito entre 1742 e 1747 em jacarandá e nogueira, com espaldares altos e figuras de santos mártires envoltas em folhagem. O registo nacional considera-o uma referência da talha setecentista à escala nacional. O coro das monjas, separado da nave, segue uma disposição que também se encontra no Mosteiro de Arouca.

Sobre o arco do coro está o órgão. Segundo a agência Lusa, em notícia de 2014, foi começado por Manuel Teixeira de Miranda, com esculturas da caixa do seu filho Machado de Castro, e concluído em 1795 por outro filho, Machado de Cerveira. Nessa altura, o organeiro Dinarte Machado tinha acabado de o restaurar, repondo cerca de dois mil tubos. Este instrumento é um dos casos tratados em órgãos históricos portugueses.

Extinção, hospital e concessão

Com a extinção das ordens religiosas em 1834, o imóvel passou para o Estado, mas manteve funções religiosas até à morte da última freira, em 1887. Nesse período, boa parte do recheio foi disperso por museus nacionais, e outra parte perdeu-se. No século XX, o conjunto foi adaptado a hospital psiquiátrico, que encerrou em 2012, segundo o Governo.

O mosteiro entrou depois no programa Revive. O concurso foi lançado em dezembro de 2018. O contrato de concessão, por 50 anos, para reabilitação e exploração turística, foi assinado a 18 de março de 2021 com a empresa Soft Time Unipessoal, Lda. Previa um investimento estimado de cerca de 7 milhões de euros e o início da exploração em 2024. Na consulta de 5 de novembro de 2026 não encontrámos fonte oficial que confirme a abertura do hotel ou o estado atual das obras.

Classificação e proteção

O registo nacional identifica o monumento como Mosteiro de Lorvão, compreendendo os túmulos de Santa Teresa e de Santa Sancha, classificado como Monumento Nacional pelo Decreto de 16 de junho de 1910, publicado no Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho de 1910. A zona especial de proteção foi fixada por portaria de 12 de novembro de 1960 (Diário do Governo, II série, n.º 269, de 18 de novembro de 1960). O imóvel integra o inventário temático dos Itinerários de Cister. Não é Património Mundial; a ligação à UNESCO passa apenas pelo manuscrito guardado em Lisboa.

Preparar a visita

O mosteiro fica na freguesia de Lorvão, a cerca de 7 km de Penacova, segundo a localização indicada no registo nacional. Na consulta de 5 de novembro de 2026 não encontrámos horário oficial publicado pelo Município de Penacova ou pela Património Cultural, I.P., e a concessão turística pode condicionar o acesso a partes do edifício. Confirme previamente as condições de entrada na igreja e no claustro junto do Município de Penacova, sobretudo em dias de celebrações religiosas.

Para enquadrar a visita, compare Lorvão com outros mosteiros de Cister do Centro e do Norte e com o percurso descrito nas rotas de Cister em Portugal.

Fotografia de Pedro from Maia (Porto), Portugal, de 29 de março de 2018. Original no Wikimedia Commons, sob CC BY 2.0; redimensionada e comprimida para a web, sem alterar a composição.

Perguntas frequentes

Quando passou o Mosteiro de Lorvão para a Ordem de Cister?
O registo nacional do património indica que a regra beneditina vigorou até 1200, quando o mosteiro passou para Cister e se tornou feminino, por ação de D. Teresa, filha de D. Sancho I. Um comunicado do Governo de 2018 aponta 1206; a data exata deve ser lida com essa reserva.
O Apocalipse do Lorvão está no mosteiro?
Não. O códice, copiado em 1189, conserva-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, para onde foi levado por Alexandre Herculano. É o manuscrito, e não o edifício, que integra a inscrição Memória do Mundo de 2015 dedicada aos comentários ao Apocalipse de Beato de Liébana.
Qual é a classificação do mosteiro?
Monumento Nacional, com a designação «Mosteiro de Lorvão, compreendendo os túmulos de Santa Teresa e de Santa Sancha», pelo Decreto de 16 de junho de 1910 (Diário do Governo n.º 136, de 23 de junho de 1910). A zona especial de proteção foi fixada por portaria de 12 de novembro de 1960.
O mosteiro vai ser hotel?
Em março de 2021 o Estado assinou um contrato de concessão por 50 anos, no programa Revive, para reabilitação e exploração turística, com abertura prevista para 2024. Na consulta de 5 de novembro de 2026 não encontrámos confirmação oficial de que o hotel tenha aberto.

Fontes

  1. Património Cultural, I.P. — Mosteiro de Lorvão, compreendendo os túmulos de Santa Teresa e de Santa Sancha (70694)
  2. Património Cultural, I.P. — Atlas do Património Classificado e em Vias de Classificação
  3. Diário do Governo — Decreto de 16 de junho de 1910 (n.º 136, 23-06-1910)
  4. Governo de Portugal — Lançado concurso Revive do Mosteiro de Lorvão (2018)
  5. Governo de Portugal — Programa Revive: contrato de concessão do Mosteiro do Lorvão assinado a 18 de março (2021)
  6. Europeana / Arquivo Nacional Torre do Tombo — Apocalipse do Lorvão
  7. UNESCO — Manuscripts of the Commentary to the Apocalypse (Beatus of Liébana) in the Iberian Tradition
  8. The Medieval Bestiary — Arquivo Nacional da Torre do Tombo, MS. 90 (De avibus)
  9. RTP / Lusa — Restauro devolve som original a órgão do século XVIII em Lorvão, Penacova (29-04-2014)
  10. Wikidata — Mosteiro de Lorvão (Q10332624)

Continue a explorar

Património por perto

Outros lugares para descobrir a partir daqui. Distâncias aproximadas em linha reta, até 50 km.

Explorar o atlas